☰
Conteúdo Exclusivo: Feito Pipa – titulares Abramus têm trilha indicada ao Oscar

A maior associação de música e artes do brasil

ASSOCIE-SE

A maior associação de música e artes do brasil


ASSOCIE-SE PESQUISA DE OBRAS CADASTRO DE OBRAS ISRC
VOLTAR

Conteúdo Exclusivo: Feito Pipa – titulares Abramus têm trilha indicada ao Oscar

Por Daniella Turano

Entre a liberdade de ser quem é e o medo de perder quem mais ama, Gugu descobre que crescer também significa enfrentar incertezas. É a partir desse menino que Feito Pipa, de Allan Deberton, constrói um sertão de fantasia, afeto e múltiplas sonoridades. Escolhido para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional, o longa encontra na música uma forma de revelar o que seus personagens nem sempre conseguem dizer.

Filmado em Quixadá, no Ceará, o filme acompanha Gugu, criado pela avó Dilma, que lhe oferece acolhimento e cumplicidade. Com o adoecimento dela, o menino teme a separação e a possibilidade de viver com o pai. A trilha original convive com canções populares, forró e música pop e é assinada pelo compositor cearense João Victor Barroso, com produção fonográfica da Deberton Filmes – ambos titulares Abramus.

Uma trilha que não precisa explicar tudo

A parceria musical começou em 2025, quando Allan convidou João Victor a experimentar uma composição para a cena de abertura. A experiência deu certo, e o compositor teve acesso ao filme completo, já montado e com músicas diegéticas – aquelas que fazem parte do universo da história e podem ser ouvidas pelos próprios personagens, como uma canção tocando no rádio ou alguém cantando em cena.

A força das interpretações e da montagem, no entanto, trouxe um desafio. Era preciso encontrar espaço para a trilha original sem sobrecarregar as cenas ou reforçar emoções que as imagens já transmitiam. “Minha primeira decisão foi criar uma instrumentação que fosse coerente com a dimensão e o conceito do filme. Algo mais minimalista, com timbres sensoriais, lúdicos e coloridos, trazendo contemplação e leveza a uma história de dramas tão doloridos”, conta João Victor.

Ele criou apenas dois temas melódicos. Um, de caráter heroico, surge na trompa em referência ao momento em que Gugu anuncia que vai “salvar o mundo”; sua variação no pífano acompanha situações mais movimentadas. O outro evoca a saudade e as lembranças de Dilma sobre a filha Eliane. No restante da trilha, um trêmulo agudo e áspero de bandolim sugere um abalo psicológico, enquanto o violão com efeito introduz tensão numa cena de bullying. A música também dá ritmo à montagem, acompanhando mudanças de atmosfera e viradas emocionais.

Para Allan, não bastava decidir qual música entraria em cada cena. Também importava saber quando ela deveria dar lugar a outros sons. “O processo também envolve encontrar equilíbrio entre presença e ausência. Em um filme como Feito Pipa, os silêncios, os sons da paisagem e a música têm funções muito importantes. Era fundamental que esses elementos convivessem”, explica o diretor.

O som de um sertão contemporâneo

A identidade musical do filme também nasceu das conversas entre Allan e João Victor sobre a maneira de retratar o sertão.

“Existe uma tradição de representar o Nordeste através de determinados códigos visuais e musicais. Em Feito Pipa, nos interessava mostrar um território que também é atravessado pela cultura pop, pela diversidade, pela fantasia e por diferentes referências culturais”, afirma Allan.

Para chegar a esse resultado, João Victor reuniu acordeom, triângulo, violão e pífano a sintetizadores, guitarra, percussões experimentais, cordas e piano elétrico Rhodes. Instrumentos associados à região ganham outras formas de execução, sem abandonar suas raízes. O encontro entre delicadeza e dor se revela especialmente nas passagens sobre o esquecimento de Dilma. Enquanto Gugu percebe que pode perder a presença que lhe dá segurança, a trilha evita transformar cada instante em tristeza.

“O caminho mais evidente seria acentuar a tristeza ou a angústia dessas situações. Mas o que me interessa na música é justamente sua capacidade de trazer outras possibilidades emocionais. Nessas passagens, a trilha de João Victor ajuda a preservar a ternura da relação, mesmo quando estamos diante de algo doloroso”, diz o diretor.

Do Ceará para as telas do mundo

Feito Pipa estreou mundialmente na Berlinale 2026, onde recebeu o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri Internacional da mostra Generation Kplus. Em Guadalajara, conquistou prêmios Maguey de Melhor Filme e Melhor Interpretação, este último para os atores Teca Pereira e Yuri Gomes. Também passou por festivais como Cartagena, Xangai, Giffoni e Gramado antes de ser selecionado para representar o Brasil na corrida pelo Oscar.

A repercussão traz expectativas para João Victor, cuja trajetória passa pela música para teatro, dança e cinema. “Ter seu trabalho atrelado a um filme tão lindo e que está ganhando tanto espaço traz a esperança de novos caminhos se abrirem. Um dos maiores desafios do mercado de compositor de trilha sonora é conseguir uma constância de convites”, afirma.

Nas sessões internacionais que acompanhou, Allan viu crianças e adolescentes de culturas distintas se reconhecerem em Gugu: “Às vezes, a experiência cultural é completamente diferente, mas a emoção encontra um caminho. Acho que isso diz muito sobre a potência do cinema brasileiro. Não precisamos universalizar nossas histórias antes de contá-las. Podemos partir daquilo que conhecemos profundamente e descobrir que o mundo também se reconhece ali”.

Com a estreia brasileira marcada para esta quinta-feira, 5 de novembro, Feito Pipa chega aos cinemas depois de uma trajetória de reconhecimento internacional. Na história de Gugu, a música encontra espaço entre a fantasia e a perda, ajudando a construir um sertão que se revela não apenas pelo que mostra, mas também pelo que se ouve.

           

SIGA-NOS NAS
REDES SOCIAIS

ASSINE NOSSA NEWSLETTER