Por Roberto Mello, diretor executivo da ABRAMUS
Quando uma música toca no rádio, em um bar, numa série de televisão ou numa plataforma de streaming, há uma rede invisível de trabalho por trás daquele momento. É a essência da gestão coletiva: transformar execução em remuneração, com justiça e transparência. Há mais de 40 anos, esse é o propósito da Abramus.
Falo sempre sobre a confiança que os titulares depositam em nós. É o ativo mais valioso de uma associação de gestão coletiva e também o mais delicado. Por isso quero tratar aqui de algo que raramente aparece em manchete, mas que sustenta tudo o mais.
Costumo ouvir de titulares que somos muito burocráticos. A crítica é compreensível, mas a verdade é que os processos e regras de cadastro e documentação exigidos para receber valores do Ecad são essenciais para garantir a lisura do sistema de gestão coletiva de execução pública musical. Sem critério uniforme, o esperto ganha espaço às custas do correto. Com critério uniforme, o correto sabe que seu trabalho vale exatamente o que vale.
O modelo brasileiro é referência internacional e o mais benéfico para os titulares. Isso não é discurso institucional, é fato. Nosso sistema de documentação e resolução de conflitos é sofisticado justamente porque é baseado na fiscalização cruzada entre as associações. O volume de cadastros e de resoluções que executamos todos os dias prova a eficiência desse modelo.
Esse trabalho começa antes de qualquer distribuição. Quando um repertório chega à Abramus, equipes experientes examinam a documentação, comparam o que foi declarado pelo titular com o que outras fontes do mercado informam e observam se aquele cadastro tem coerência com a trajetória do artista. São profissionais que conhecem o ecossistema musical brasileiro a fundo. Esse repertório de conhecimento não está em nenhum manual e é ele que permite enxergar o anômalo dentro do normal. Trata-se de inteligência de mercado aplicada à proteção dos criadores.
Às vezes pedimos documentação adicional. Às vezes uma liberação de créditos demora mais do que o esperado. Nessas horas, pode parecer entrave, mas não é. É a camada de segurança que garante que o valor da sua obra não seja diluído por cadastro incorreto ou declaração indevida, nem o seu, nem o de nenhum outro titular do sistema. Cada verificação que fazemos protege o conjunto e o conjunto protege cada um.
A Abramus atua em parceria permanente com o Ecad e com as demais associações que integram o sistema. A integridade da distribuição é um bem coletivo. Quando trabalhamos para que cada real arrecadado chegue ao seu destinatário legítimo, estamos defendendo todos os criadores da música brasileira, independentemente de qual associação cada um represente. Fraude contra o sistema prejudica o compositor, o intérprete e o músico que vive do seu trabalho.
No dia a dia da Abramus, isso se cumpre na ficha examinada com atenção, no dado conferido com outra fonte, no padrão que não passa batido, na decisão documentada. A confiança que nos é depositada não é um ponto de partida que assumimos. É um resultado que reconstruímos todos os dias.
O titular pode ter certeza de uma coisa. Do outro lado do balcão, do outro lado do sistema, do outro lado da música que toca, há gente tratando o seu direito como se fosse nosso. Porque, para nós, é.
Arte: Júlia Sousa