

A maior associação de música e artes do brasil
Por Daniella Turano
Comemorando três décadas de estrada, o CPM 22 transforma sua trajetória em música, arrasta novas gerações para os shows e mostra que o segredo da longevidade no rock é nunca perder a própria essência
Algumas músicas funcionam como cápsulas do tempo. Basta o primeiro acorde tocar para que o ouvinte seja transportado instantaneamente para um momento específico da vida. Mas o que acontece quando a banda responsável por criar a trilha sonora de milhares de pessoas decide revisitar a sua própria história?
Formado em 1995, em Barueri (SP), o CPM 22 completou oficialmente 30 anos em agosto de 2025. Durante todos esses anos, viu o mercado da música atravessar intensas transformações de formato e consumo — da fita cassete ao streaming —, acompanhou todas essas mudanças, mas nunca abriu mão de sua identidade. Como não podia deixar de ser, a celebração ganhou uma turnê nacional, estendida até o fim de 2027, um novo single e plateias que continuam se renovando.
“A gente construiu uma carreira sólida, fez mais escolhas certas do que erradas e criou uma conexão muito forte com o público. Sempre foi fiel ao próprio estilo e à própria identidade. Talvez a gente esteja vivendo a melhor fase da banda justamente por conta dessa relação”, conta Badauí.
Hoje, o CPM 22 é formado por Badauí (vocal), Luciano Garcia e Phil Fargnoli (guitarras), Ali Zaher Jr. (baixo) e Daniel Siqueira (bateria).
Uma carta de gratidão em forma de música
Para marcar as três décadas, a banda lançou o single “30 Anos Depois”. Distribuída pela Ditto Music, a faixa nasceu de uma ideia pouco convencional do guitarrista Luciano Garcia: fazer uma única música de 30 minutos que contasse essa história.
O desafio foi aceito por Badauí, que mergulhou nas próprias memórias. “Eu revisitei momentos desde a adolescência. Entrei na banda com 19 anos, hoje estou com 50. São muitas histórias, é uma vida realmente”, conta o vocalista.
O longo texto acabou sendo resumido para caber no formato de canção (a íntegra da carta original foi disponibilizada para os fãs na internet), e o resultado funciona como um abraço no público.
“O agradecimento é para quem sempre esteve do nosso lado, independentemente dos momentos, de mais visibilidade ou de dificuldades. O agradecimento é para o nosso próprio público”, crava o cantor.
A faixa também ilustra uma mudança na forma de a banda compor. Antes, as letras precisavam se encaixar nas melodias preexistentes; hoje, a escrita é livre. “De uns dois ou três discos para cá, tenho mandado vários textos para o Luciano, que tem a manha de transformar isso em música. Esse processo facilitou muito para eu expor meus pensamentos e as coisas em que acredito. Também ampliou meu vocabulário, porque eu deixei de ficar preso a uma métrica”, explica.
Se o processo de composição mudou ao longo desses 30 anos, a relação com aquilo que nasce dele também ganhou outra dimensão. Afinal, uma música não é apenas parte do repertório: é uma obra e, para seus autores, um patrimônio.
Filiado à Abramus desde o início de sua trajetória, Badauí ressalta a importância de conhecer também os bastidores que envolvem uma carreira musical. “É superimportante saber a parte mais burocrática que envolve uma banda. Tem músicas que eu escrevi no quarto quando tinha 20 anos e eu não imaginava o que ia se tornar, por exemplo, ‘Regina Let’s Go!’”, relembra.
“Sem respaldo jurídico e o suporte de uma instituição como a Abramus, o compositor pode deixar de arrecadar o que merece. É uma obra sua, é um patrimônio seu”, alerta.
O encontro de gerações no palco
A turnê comemorativa, que chega a São Paulo no dia 22 de agosto, na Audio, é a prova de que a energia do grupo — que conquistou o Grammy Latino em 2008 e levantou o Rock in Rio em 2015 — permanece inabalável.
No palco, com projeções que passeiam pela história da banda, os veteranos encontram uma plateia impressionantemente jovem — algo impulsionado pelos algoritmos de streaming e por grandes vitrines recentes, como a apresentação no festival The Town. O desafio agora é montar um setlist que dê conta de uma discografia tão vasta.
“A escolha das músicas foi a maior dificuldade, mas é um problema bom”, brinca Badauí. O vocalista estima que pelo menos 45 músicas passem pelo setlist ao longo da turnê, resgatando inclusive canções não tocadas há muito tempo. “Uma música que me surpreendeu positivamente, que ganhou outro significado para mim, é ‘Pensamentos Negativos’ [do álbum Felicidade Instantânea]. Era uma das que não tocávamos há anos e está muito legal ao vivo. Tem jovens que nunca tinham ouvido ao vivo. Isso é bem legal.”
Sobre o show na capital paulista, o vocalista deixa um aviso: “A banda está muito afiada. O público pode esperar um show com energia que começa alta e termina alta. Isso eu garanto!”
O futuro não tem pressa
Enquanto a turnê segue até o fim de 2027, o CPM 22 já trabalha em novas composições. O próximo álbum, porém, não tem pressa: com Enfrente lançado em 2024 e a turnê comemorativa, a banda quer dar mais tempo ao repertório atual antes de abrir um novo ciclo.
“A gente já vem compondo algumas coisas, mas sem pressa. A princípio, a ideia do disco novo é mais para 2028 mesmo. As pessoas ainda nem digeriram o Enfrente direito. A gente quer deixar a galera entender melhor esse disco e fazer um outro com calma”, pondera Badauí.
Formações mudaram, formatos de consumo nasceram e morreram, mas a essência do CPM 22 segue intacta. Entre novos fãs descobrindo seus acordes no streaming e veteranos cantando a plenos pulmões na grade dos shows, o grupo prova que a verdadeira vitória no rock nacional não é apenas fazer sucesso, mas permanecer sendo de verdade. “A formação mudou. Mas a identidade, o DNA e o que a gente quer como propósito, isso nunca mudou”, finaliza.