Irupê Teixeira Rodrigues, um dos grandes protagonistas da trilha sonora da alma brasileira

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Irupê Teixeira Rodrigues, um dos grandes protagonistas da trilha sonora da alma brasileira

Por Belinha Almendra

A história de sucesso da Abramus, que começou a ser escrita há 44 anos por um grupo de músicos liderado pelo saxofonista Demétrio Santos Lima, tem entre os seus protagonistas o saxofonista, flautista, maestro e arranjador Irupê Teixeira Rodrigues. Querido e reverenciado por colegas de ofício, Irupê é uma unanimidade que merece todas as nossas homenagens. Como integrante do grupo The Jordans ou como maestro, músico e arranjador do grupo Raça Negra, além das inúmeras colaborações com artistas como Sergio Reis, Ronnie Von, Alexandre Pires e Leandro & Leonardo, Irupê criou a identidade sonora que revolucionaria o pagode romântico nos anos 1990.

Irupê Teixeira Rodrigues (acervo pessoal)

“Irupê é um dos fundadores da Abramus, chegou a nós pelas mãos do Demétrio, e tem uma história muito bonita na música. Estava sempre presente nas reuniões e às vezes, quando tínhamos alguma questão para deliberar, eu pedia que o Irupê participasse, porque ele gostava de estar conosco. Como grande músico, maestro e arranjador que é, o Irupê faz parte do melhor da história da música popular brasileira”, celebra Roberto Corrêa de Mello, CEO da Abramus.

Nascido em Presidente Epitácio, São Paulo, há 82 anos, Irupê montou o seu primeiro grupo, chamado Los Rodrigues, com apenas 8 anos, ao lado dos irmãos. Aos 14 já tocava tuba e trompete, e quando a família se mudou para a capital paulista, aprendeu a tocar saxofone, instrumento que o acompanharia ao longo da carreira. Aos 17 anos integrou uma banda de garagem, The Rebels, antes de fazer parte do grupo The Jordans, no qual tocava sax e trompete.

Considerado um dos maiores grupos de rock instrumental da década de 1960, o The Jordans – cujo nome foi inspirado no grupo The Jordanaries, que acompanhava Elvis Presley -, lançou vários 78 rpm, LPs e compactos, com muito sucesso. Baixista do The Jordans, Tony (José de Andrade), lembra com carinho da chegada de Irupê à banda: “Me lembro que em 1962, quando nós fazíamos o programa ‘Ritmos para Juventude’, na TV Paulista Canal 5, que hoje é a TV Globo, um rapaz se dirigiu a mim dizendo ser músico. Perguntei quais instrumentos ele tocava e ele me disse que era sax.  Eu respondi ‘rapaz, você chegou na hora certa, pois estamos querendo colocar um sax no conjunto para tocar na boate Lancaster, na Rua Augusta’, que foi a lançadora do ritmo twist. Irupê, que para nós sempre foi somente Iru, é um tremendo músico, além de amigo e irmão nessa longa caminhada musical”.  Outro companheiro de grupo, o baterista Foguinho (Waldemar Botelho Júnior) conta mais: “Fazíamos muitos shows pelo país e em 1963 gravamos a música “Blue Star”, que foi para o primeiro lugar nas paradas de sucesso. Gravamos o ‘Tema de Lara’, que estourou em todo país e nos levou para uma série de shows na Itália, passando por Londres, onde encontramos dois dos Beatles, John Lennon e Ringo Starr, no estúdio onde eles gravavam o filme ‘Yellow Submarine’”.

Irupê Teixeira Rodrigues (acervo pessoal)

Quando as atividades do The Jordans se encerraram, em 1974, Irupê passou a tocar, gravar e viajar com vários artistas, como o cantor espanhol Manolo Otero e a dupla Lenadro e Leonardo. Foi na lendária casa de shows Stardust que o músico conheceu a cantora Cissa (Maria Cecilia Rocha). “Nós fazíamos parte do elenco da casa e acabamos nos apaixonando e nos casando”, conta Cissa, que foi testemunha também do início da história de sucesso de Irupê com o grupo Raça Negra, que se tornaria um fenômeno de popularidade. “No início dos anos 1990, Irupê foi procurado por dois rapazes da Zona Leste de São Paulo (Luiz Carlos e Fernando), com uma fita: queriam que ele fizesse os arranjos das músicas para que eles mostrassem em alguma gravadora. Todos eram amadores, apenas Irupê era músico profissional, então, ele concebeu um som inovador, misturando coisas que ele gostava, como o Earth Wind and Fire. Colocou teclado, metais, instrumentos diferentes do que se usava no samba.  E foi assim que aconteceu o Raça Negra, com Irupê fazendo escola! Eu costumo dizer que, como músico e arranjador, o Irupê vestiu de gala o pagode paulista e o levou para o Brasil e para o mundo”, orgulha-se.

A mistura inovadora proposta pelo maestro quebrou barreiras e abriu espaço para o pagode nas rádios FM e para o surgimento de outros grupos do gênero. Fernando Monstrinho, percussionista do Raça Negra, é só elogios ao mestre: “Falar da musicalidade do Raça Negra é falar do Irupê. Ele foi tudo! Foi o Irupê quem colocou toda a harmonia, o piano e aqueles solos incríveis de sax. Ele escrevia toda a grade da música e apesar da nossa diferença de idade, sempre nos demos muito bem. Se existe gênio na música, Irupê é um deles.  Sem contar a pessoa maravilhosa que ele é”.  Fininho, baterista do Raça Negra, faz coro: “Falar do Irupê é chover no molhado! Além de extremamente competente, é um cara maravilhoso, muito sociável. Fazendo arranjos ele é ‘hors concours’. Dentro do Raça Negra fizemos uma amizade muito grande, eu vi o trabalho que ele fez no grupo. Irupê também me deu muitos toques sobre bateria, me ajudou muito no meu trabalho e mesmo na minha vida pessoal. É uma pessoa ímpar!”.

A lista de admiradores é longa. Ronnie Von, por exemplo, é categórico ao dizer que Irupê foi também um sábio conselheiro em sua vida. “Trabalhamos juntos por muito tempo e daí nasceu uma amizade que jamais será perdida, ele mora no meu coração. Tem uma história curiosa que pouca gente sabe, mas o Irupê foi um dos grandes incentivadores do meu casamento com a Kika! Estamos juntos há mais de quarenta anos e muito dessa união eu devo a ele”, conta Ronnie. O músico, cantor, produtor e compositor de vários sucessos Antônio Luiz, conheceu Irupê nos anos 1970: “Quem me apresentou a ele foi o nosso baixista, Pancho, que tocava comigo e com ele. Irupê fez arranjos maravilhosos para músicas minhas, é um músico excepcional, maestro maravilhoso, uma pessoa que contribuiu muito para a nossa música. Eu era fã desde o tempo dos Jordans, então, conhecer o Irupê foi conhecer um ídolo que eu tinha, um presente de Deus”. Já o cantor, músico e produtor Nil Bernardes tem saudades das madrugadas em estúdio com Irupê: “Passamos muitas noites e madrugadas no Estúdio Mosh (SP), gravando CDs do Raça Negra. Sempre com aqueles arranjos e solos de saxofone maravilhoso. Para nós, o trabalho sempre foi diversão”.

A trajetória de Irupê Teixeira Rodrigues não é apenas a soma de seus talentos, mas o testemunho de uma vida dedicada à música. Nesta homenagem da Abramus, celebramos não só a história de um fundador, mas a de um músico que, com seu saxofone e seu coração, ajudou a compor a trilha sonora da alma brasileira.

Fotos Irupê: Cedidas pelo artista | Texto: Belinha Almendra | Arte: Julia Sousa

           

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