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Conteúdo exclusivo: Supla prova que nada foi em vão

Por Daniella Turano

Em seu 20º álbum, o cantor e compositor mistura punk, rock clássico, ska, funk e até bossa nova para refletir sobre o tempo e as transformações do mundo. O repertório ganha o palco da Casa Rockambole, em São Paulo, em 5 de junho


Quase 40 anos depois de iniciar sua trajetória na música, Supla continua movido pela mesma inquietação criativa que o transformou em um dos personagens mais autênticos do rock brasileiro. Recém-chegado de uma turnê por Colômbia, Argentina e Uruguai ao lado da veterana banda punk nova-iorquina The Casualties, o artista lança Nada Foi em Vão, seu 20º álbum, reafirmando uma vitalidade que será celebrada em um show especial em 5 de junho, na Casa Rockambole, em São Paulo.

Mais do que um novo disco, Nada Foi em Vão funciona como uma espécie de balanço de vida. O título resume a percepção de que cada experiência, mesmo as mais difíceis, contribui para a construção de um caminho.

“Tanto as coisas ruins como as coisas boas trazem aprendizado. Você vai entendendo melhor a vida e percebendo que, no fim das contas, nada foi em vão”, explica o artista.

Um disco que reflete sua trajetória

O álbum reúne 15 faixas e passeia por diversas referências musicais. Há punk rock, baladas, ska, funk, rock clássico e até uma “bossa nova gótica”, como ele mesmo define If You Believe in Nosferatu. Parte do repertório foi gravada em Los Angeles com músicos como Marc Orrell, ex-integrante do Dropkick Murphys, e Jeff Roffredo, do The Aggrolites.

“Esse disco é muito o reflexo da minha alma e de tudo o que escutei ao longo da vida. Eu faço a música no meu jeito de cantar e compor, e isso acaba resultando em algo que tem a minha cara.”

A variedade sonora reflete também a liberdade criativa do artista. Em Queixo Novo, Supla ironiza os excessos da harmonização facial e o avanço da inteligência artificial. Já Médico Monstro aborda, com peso e indignação, casos reais de abuso cometidos por profissionais da saúde. Na faixa-título, gravada nos Estados Unidos em parceria com Tatiana Prudencio, o tom é mais introspectivo, com versos sobre reencontros e amadurecimento.

“A letra já diz tudo: seguir o coração, escutar a razão e entender que viver é uma inspiração”, conta ele.

O disco inclui ainda releituras de Be My Baby, das The Ronettes (banda que influenciou os Beatles), e Raindrops Keep Fallin’ on My Head, de Burt Bacharach, reafirmando a conexão de Supla com a tradição do pop e do rock.

Para o artista, a composição continua sendo o centro de todo o processo. E essa disposição para experimentar e seguir criando é, segundo ele, o segredo para permanecer ativo depois de tantas décadas.

“Compor é uma forma de expressão. Eu gosto de todo o processo, mas essa parte de criar a música desde o começo é algo que realmente mexe comigo. O mais importante é você se manter sempre curioso e criativo. Acho que isso é fundamental como artista e também para a vida, regra para envelhecer bem.”

Conexão com as novas gerações

Essa inquietação criativa também se reflete na forma como Supla se comunica com o público. Sem abrir mão do rádio e da televisão, ele reconhece que a presença digital se tornou essencial para manter a conexão com diversas gerações e ampliar o alcance do seu trabalho.

“Hoje em dia, se você não está na internet, você não está no jogo. É importante estar em todos os lugares: na internet, no rádio, na televisão, porque cada meio conversa com um público diferente”, afirma.

Segundo ele, essa atuação em múltiplos canais ajuda a explicar a constante renovação de sua audiência. “É impressionante como o público se renova. E acho que a molecada percebe que eu sou exatamente aquilo que coloco nas minhas músicas. Existe também uma curiosidade por essa mistura natural que faço entre o português e o inglês. Não é um personagem. Eu sou assim, e acho que o público reconhece.”

Sua atuação também se estende ao audiovisual. Paralelamente ao lançamento do álbum, Supla participou da série Raul Seixas: Eu Sou, do Globoplay, em uma aparição breve, mas marcante.

Música em campo

Recentemente, Supla lançou também o single Champs, inspirado na Copa do Mundo e com participação de Bernard Rhodes, histórico empresário do The Clash. A música mistura futebol, rock e entusiasmo.

Para o artista, a relação entre música e futebol é antiga e faz parte da própria cultura brasileira. “Eu amo futebol e acredito na positividade. Isso vem desde a época do Jorge Ben. Quando você vê imagens do Pelé ou do Garrincha acompanhadas de música, percebe que tem tudo a ver. Existe um gingado, um ritmo, uma energia em comum”, diz.

Em Champs, essa conexão aparece de forma explícita, com versos em inglês sobre uma base inspirada na bossa nova. Na canção, Supla transforma sua paixão pelo esporte em música, reforçando uma característica constante de sua obra: a capacidade de unir referências da cultura pop, o humor e o entusiasmo em composições que dialogam com o seu tempo. Como o próprio artista resume, ele faz seu trabalho “com muito amor e muita devoção”, e, quando sente que a música o representa, simplesmente a coloca no mundo. O que acontece depois já não está sob seu controle.

Do digital para o palco

No show do dia 5 de junho, o público poderá ouvir músicas do novo álbum, sucessos de diversas fases da carreira e versões de clássicos do rock que ajudaram a moldar sua identidade artística. Se a composição é o ponto de partida, o palco continua sendo o lugar onde tudo ganha sentido.

“Vamos tocar músicas do novo álbum, vários sucessos da minha trajetória e também clássicos do rock and roll que sempre me influenciaram. Serão exatamente 40 músicas no show.”

E, mesmo depois de quase quatro décadas de carreira, Supla continua olhando para o futuro com o mesmo entusiasmo de quem está começando. “Eu ainda gostaria de ter um hit internacional. Enquanto estiver vivo, essa possibilidade continua existindo.”

Entre novos discos, turnês internacionais, participações no audiovisual e a conexão permanente com gerações variadas, o artista segue movido pela mesma curiosidade que o trouxe até aqui. Ao transformar experiências, referências e inquietações em música, Supla reafirma que, tanto na carreira quanto na vida, nada foi em vão.


Serviço

Show de lançamento de Nada Foi em Vão
Data: 5 de junho de 2026
Horário: 21h
Local: Casa Rockambole
Com: Supla e os Punks de Boutique


Nada Foi em Vão já está disponível em todas as plataformas digitais.

Foto: Victoria Brito | Cedida pelo artista

Arte: Júlia Sousa

           

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