Se o assunto é samba com carisma e identidade, o nome dela é destaque na nova geração. O Sintonizando desta semana recebe a cantora e compositora Rafa Laranja!
Com uma coragem que a fez trocar a advocacia pelos palcos, Rafa construiu uma estrada sólida de mais de 15 anos. Ocupando os bares e casas da Baixada Santista desde 2011, ela trilhou um caminho de amadurecimento que culminou no registro histórico de seu audiovisual “Rafa Laranja Ao Vivo” .
Sua jornada segue em expansão, unindo sua essência autoral a parcerias de peso, como o recente single ao lado de Marquinhos Sensação, consolidando sua presença nos grandes palcos nacionais.
Vem sintonizar com Rafa Laranja!
Conte um pouco sobre o audiovisual “Rafa Laranja Ao Vivo”. Qual foi a sensação de viver essa experiência e o que mais te marcou nesse projeto?
O álbum Rafa Laranja Ao Vivo é, sem dúvida, a maior trabalho da minha carreira até aqui. Mais do que um disco, foi a realização de um sonho — daqueles que a gente sente que se preparou a vida inteira para viver.
Cada detalhe foi planejado, cuidado e executado com muito amor. A produção musical ficou por conta do incrível Marquinhos dos Santos, com arranjos assinados por ele, além de Nélio Júnior, Pedro Santos, Jota Moraes e André Willian — um time que trouxe ainda mais força e identidade para essa obra.
O disco reúne músicas autorais que já fazem parte da minha trajetória, agora com a energia única do registro ao vivo, além de faixas inéditas e releituras de canções que são referência na minha vida e compõem o universo do samba e do pagode. Tudo isso para criar conexão, emoção e verdade com quem escuta.
E, sem dúvida, um dos pontos mais especiais desse registro são os feats. Dividir essa etapa com artistas que eu admiro tanto, e que representam a renovação da cena, foi emocionante e muito significativo para mim. Erick Jordan, Amanda Amado, Milthinho, Renato da Rocinha, Família Ébano e Marquinhos Sensação são os nomes que somam e abrilhantam ainda mais esse capítulo tão relevante da minha história. Esse projeto é sobre música, encontro, verdade… e um sonho que virou realidade.
Como foi receber o convite do Mumuzinho, na “Resenha do Mumu”, para gravarem “Consegue”, e qual foi o impacto desse acontecimento na sua carreira?
Ter uma música autoral gravada por um artista gigante — e que sempre foi minha maior referência no pagode — é, para mim, zerar o game! Tudo aconteceu de forma tão espontânea que demorou para a ficha cair. Eu já tinha dividido o palco algumas vezes com o Mumuzinho, e ele, como sempre, foi extremamente generoso. Eu acredito muito na força da composição “Consegue”, e sinto que foi justamente essa energia que tocou o coração dele e despertou a vontade de gravar comigo.
Foi tão inacreditável que eu só consegui realmente acreditar quando vi, com os meus próprios olhos, ele entrando no estúdio. Foi surreal! Esse marco levou minha carreira e meu nome para outro patamar. É um artista respeitado, amado, e ver alguém assim validando o meu ofício tem um peso enorme. Foi tão marcante que até hoje colho frutos desse encontro. Serei eternamente grata por esse gesto tão genuíno, nobre e humano.
Ser a intérprete oficial do espetáculo “Elis do Brasil” é uma responsabilidade imensa. O que você sente ao dar voz a um repertório tão icônico?
Receber um convite para cantar com uma orquestra já carrega, por si só, um peso lindo: é responsabilidade, entrega e um dos palcos mais grandiosos que um artista pode ocupar. Mas, no meu caso, esse sentimento não só se confirmou — ele se multiplicou.
Elis Regina, para mim, não foi apenas uma cantora. Foi a maior intérprete que o nosso país já conheceu. Uma artista que transformava cada música em verdade, em emoção viva. E ter a honra de dar voz ao espetáculo “Elis do Brasil”, que celebra esse ícone tão imenso, é algo que ultrapassa qualquer medida.
Cantar Elis não é só interpretar. É se colocar a serviço de uma obra gigante. É reverenciar não apenas a artista extraordinária que ela foi, mas também os grandes compositores da música popular brasileira, que ganharam ainda mais vida através dela. É um mergulho profundo, intenso, visceral. É se emocionar… e, ao mesmo tempo, emocionar.
Quais são os principais desafios de ser mulher no samba e no pagode? E qual é a sua visão sobre a relevância de ocupar esses espaços?
Falar sobre os desafios de ser mulher na cena do samba e do pagode é, antes de tudo, reconhecer que nascer mulher, em muitos contextos, já é enfrentar uma caminhada mais difícil. E a história da música deixa isso muito evidente: ser vista, ser ouvida — e, mais ainda, ser reconhecida — sempre exigiu o dobro, às vezes o triplo.
No samba, tivemos mulheres gigantes que romperam barreiras com talento, coragem e resistência: Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Clara Nunes, Clementina de Jesus, Beth Carvalho… Mulheres que abriram caminhos, mas que também enfrentaram um mercado duro, machista e pouco disposto a dividir espaço.
Com o passar dos anos, houve um certo vazio. Quando o pagode ganha força, vemos nomes como Eliana de Lima e Adriana e a Rapaziada surgirem, mas sem a sustentação necessária — muito por conta da dificuldade de aceitação e investimento nesse protagonismo feminino.
Hoje, vivemos mais uma tentativa — potente e necessária — de ocupar esse lugar. Temos mais mulheres nos palcos, nas rodas, nas casas, nas composições. Mas, ainda assim, seguimos distantes do topo da pirâmide. A presença existe, mas a equidade ainda não.
Vemos movimentos vitais e nomes ganhando força, como Ludmilla, que trouxe um novo olhar e abriu portas com muita personalidade; Ivete Sangalo, que, mesmo vinda de outro universo, fortalece o gênero em projetos como o Clareou; e artistas como Marvvila, que vêm consolidando seu território. Ainda assim, esses avanços não refletem uma igualdade real dentro do mercado.
Porque não basta só falar sobre o papel das mulheres. O discurso precisa virar prática. Falta investimento, falta espaço nos grandes festivais, falta aposta dos escritórios, falta confiança do mercado em colocar mulheres como protagonistas — e não apenas como exceção.
Mas, apesar de tudo, existe um movimento vivo acontecendo. Existe resistência, união e talento de sobra. A sensação é que estamos, sim, em uma fase de transição — construindo, tijolo por tijolo, um novo cenário. Talvez a nossa geração não veja tudo completamente transformado… mas com certeza está preparando o caminho.
Fale sobre sua experiência como titular da Abramus. Você sente que seu trabalho e seus direitos autorais estão bem protegidos?
A gente que é artista sabe que não é só sobre criar, né? Existe todo um cuidado por trás para garantir que o nosso empenho seja respeitado e valorizado. E, para mim, fazer parte da Abramus traz exatamente essa segurança — de saber que minha música está sendo acompanhada e que meus direitos estão sendo resguardados.
Isso faz muita diferença no cotidiano e na construção da minha trajetória. Dá mais tranquilidade para seguir criando, produzindo e acreditando no meu potencial. A música vem de um lugar muito verdadeiro, de muita entrega… então é essencial ter esse respaldo. Sou muito grata pela atuação e pelo valor que a Abramus tem na vida de quem vive de arte.
Arte: Júlia Sousa | Texto: Barbara Freitas