A música em cena – e nos bastidores do audiovisual

A maior associação de música e artes do brasil

ASSOCIE-SE

A maior associação de música e artes do brasil


ASSOCIE-SE PESQUISA DE OBRAS CADASTRO DE OBRAS ISRC
VOLTAR

A música em cena – e nos bastidores do audiovisual

Por Daniella Turano


Antes mesmo de um personagem falar, muitas vezes é a música que abre a cena. Ela anuncia suspense, intensifica romances, cria tensão ou transforma uma ação comum em algo memorável. No cinema, nas séries e nas novelas, a trilha sonora frequentemente atua de forma quase imperceptível, mas é ela que conduz a emoção do público.

E por trás dessas músicas que acompanham imagens e narrativas existe um universo complexo de criação, circulação de obras e direitos autorais – que atualmente constitui um importante mercado.

“O audiovisual virou um dos ambientes mais relevantes de circulação de obras musicais. Hoje, uma parcela muito significativa da distribuição de direitos autorais já vem do uso de música em produções desse tipo”, explica Diogo Rocha, diretor de Música em Audiovisual da Abramus.

A expansão da produção audiovisual nas últimas décadas, amplia também o espaço de atuação de compositores. Atualmente, quase todas as obras audiovisuais possuem uma identidade sonora própria. De modo geral, essa trilha surge de duas formas principais: a primeira é o licenciamento de músicas já existentes, escolhidas pela equipe de produção para dialogar com a narrativa da obra; a segunda é a trilha original, composta especialmente para aquele projeto.

“Quando é música original, o compositor cria em cima da narrativa, das imagens e do roteiro. Já no licenciamento, a equipe procura dentro de um repertório existente aquilo que conversa melhor com a história”, detalha Diogo.

Em alguns casos, a música deixa de ser apenas ambientação e passa a ocupar um papel central na narrativa. Foi o que aconteceu na novela Coração Acelerado, exibida pela TV Globo, em que a trilha sonora chama atenção por um dado pouco comum: mais de 20 músicas utilizadas ao longo da história foram escritas ou produzidas por um único compositor, Samuel Deolli (leia a entrevista com o compositor na seção Notícias do site Abramus).

Segundo o diretor da Abramus, esse tipo de situação depende muito da curadoria musical da obra: “Não é comum ter tantas músicas licenciadas de um mesmo autor numa novela. Mas, quando existe uma identidade estética muito clara na narrativa, isso pode acontecer.”

Mercado em expansão

A música sempre fez parte do cinema e da televisão. Com o avanço das tecnologias de gravação, essa relação se tornou ainda mais intensa, contribuindo para uma mudança, nas últimas décadas, na dimensão econômica dessa relação entre música e imagem. Hoje, uma obra pode ser exibida inúmeras vezes em diversas janelas de distribuição – televisão aberta, TV por assinatura, cinema, serviços de streaming e reprises.

Cada uma dessas exibições gera direitos autorais para os compositores. “A repetição de uma música durante meses numa novela ajuda a explicar por que trilhas de obras audiovisuais frequentemente aparecem entre as mais bem remuneradas da gestão coletiva. Nos rankings de distribuição no Brasil, muitos dos autores mais bem pagos são justamente compositores que trabalham com trilhas para cinema, televisão e séries”, conta Diogo Rocha.

De acordo com relatório do Ecad, os segmentos de televisão, streaming de vídeo e cinema já representam cerca de 42% da distribuição de direitos autorais no Brasil, refletindo o peso crescente do audiovisual no mercado musical. A distribuição total em 2025 (somados todos os 13 segmentos) foi de R$ 1,7 bilhão em direitos autorais, para cerca de 345 mil titulares.

Como entrar nesse universo

Mesmo com o crescimento do setor, entrar no mercado de trilhas exige tempo, repertório e relacionamento profissional. “Tudo o que é muito rentável acaba sendo bastante disputado também”, pontua Diogo. Além da competitividade, um fator que influencia o acesso a esse mercado é a forte concentração da produção audiovisual no eixo Rio-São Paulo, que ainda reúne a maior parte de produtoras, estúdios e projetos do país.

Segundo o diretor da Abramus, entre 60 e 70% dessa produção está localizada nessas duas cidades (Rio de Janeiro e São Paulo), que concentram os principais polos do setor: “Por isso, iniciativas de formação e circulação de informação em outras regiões também se tornaram importantes para a Abramus, ampliando o acesso de novos compositores a esse mercado”.

Durante décadas, grandes emissoras mantiveram produtores musicais contratados de forma permanente, responsáveis por compor trilhas de novelas, programas e temas institucionais. Com o tempo, esse modelo mudou. Diogo explica que hoje muitas produções trabalham com compositores por projeto ou por obra, o que abre espaço para novos profissionais, ao passo que também aumenta a concorrência. “Muitos compositores começam colaborando com profissionais que já estão no mercado. É um processo de aprendizado e construção de carreira”, complementa.

Streaming, televisão e novas dinâmicas

A digitalização também transformou o consumo de música em audiovisual. Se no passado a renda do compositor estava fortemente ligada à venda de discos e à execução em rádio, hoje grande parte do público escuta música em plataformas digitais. Em 2025, o Ecad identificou cerca de 5,8 trilhões de execuções musicais em serviços de streaming e aproximadamente 50 bilhões de exibições de conteúdos audiovisuais, números que ajudam a dimensionar a escala atual de circulação da música.

Em serviços como Spotify, Deezer ou Apple Music, a remuneração dos autores ocorre a partir da quantidade de execuções registradas na plataforma. Esses valores são calculados com base na receita total do serviço — proveniente de assinaturas e publicidade — e distribuídos proporcionalmente entre os titulares das obras executadas nas plataformas digitais, o valor individual por execução tende a ser menor, mas o alcance pode ser muito maior, já que uma mesma música pode ser reproduzida milhões de vezes em diversos países.

Já no audiovisual, a lógica de remuneração segue outro ritmo. “Quando uma música entra numa novela ou série, ela passa a circular continuamente na programação. Esse volume de execuções tem um peso muito grande na distribuição de direitos autorais”, pontua o diretor da Abramus. A partir daí começa outro processo: identificar as execuções da obra, cruzar dados de programação, registrar corretamente os autores e distribuir os valores gerados por essas utilizações.

O diretor de Música em Audiovisual da Abramus explica que a base de uma boa distribuição está na organização das informações sobre as obras, fonogramas e o cue-sheet – ficha técnica que detalha todas as obras musicais executadas em filmes, séries, novelas ou programas, identificando tipo de uso (se tema de abertura, personagens, etc), duração musical, entre outras classificações. Sem esse cuidado, o compositor pode simplesmente deixar de receber. “Às vezes, um filme, série ou novela está sendo exibido em uma janela e, consequentemente, o repertório presente naquele audiovisual vem sendo captado corretamente, mas o cadastro não está correto. Quando conseguimos organizar essas informações, a receita começa a aparecer”, conta Diogo.

É nesse ponto que entra o trabalho minucioso da Abramus: “Nosso papel é ajudar o autor a entender esse mercado, estruturar seu repertório e garantir que cada execução seja corretamente remunerada”. Em um cenário de circulação cada vez mais ampla da música no audiovisual – do cinema ao streaming de vídeo –, garantir que a autoria seja reconhecida e remunerada continua sendo o eixo central desse sistema. “Porque, no fim das contas, por trás de cada cena que emociona o público existe sempre uma música — e alguém que a criou”, avalia.

O que aumenta a remuneração de uma música no audiovisual

Alguns fatores têm impacto direto na distribuição de direitos autorais:

• número de execuções da música na obra;
• audiência e alcance da produção;
• tempo de circulação da obra (reprises e reexibições);
• presença em diversas janelas de exibição (TV aberta, tv por assinatura, cinema e plataformas digitais VoD).

Quanto maior a circulação da obra audiovisual, maior tende a ser a remuneração para os compositores.

Como a Abramus atua fortalecendo a música no audiovisual

A Abramus representa compositores, editoras, intérpretes, músicos (e produtores fonográficos) na gestão de seus direitos autorais e conexos.

Entre as atividades da associação estão:

• registro e documentação das obras;
• identificação das execuções em produções audiovisuais;
• distribuição dos direitos autorais aos titulares;
• orientação a compositores sobre cadastro e documentação de obras.

Compositores que possuem obras utilizadas em produções audiovisuais podem contar com o time de Música em Audiovisual da Abramus para orientações sobre registro, documentação e acompanhamento das execuções.

Arte: Júlia Sousa

           

SIGA-NOS NAS
REDES SOCIAIS

ASSINE NOSSA NEWSLETTER