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De volta para o futuro

Por Belinha Almendra

Há exatos 40 anos, era fabricado o primeiro CD (compact disc) no Brasil. Nas décadas seguintes, o pequeno notável transformou-se em objeto de desejo dos consumidores de música em todo o planeta, reinando absoluto até a chegada da era do streaming.

Desbancado pela nova tecnologia, o LP (abreviação de long play) parecia condenado à categoria de peça de museu. Para os jovens da geração Z e mesmo para os millennials, que viveram a transição do analógico para o digital, ele era apenas uma referência dos mais antigos a um passado distante.  

Em pleno 2026, a grande novidade, que já deixou de ser vista como modismo passageiro, é que a boa e velha bolacha, agora rebatizada de vinil, voltou às prateleiras e vem conquistando fatias significativas do mercado. Impulsionada sobretudo por consumidores mais jovens, a popularidade crescente dessa mídia, em plena era do streaming, dá sinais de que o mercado fonográfico atravessa um momento de reconfiguração.  Segundo levantamento feito em 2025 pela Pró-Música Brasil (associação que representa as principais gravadoras do mercado fonográfico brasileiro), de todas as mídias físicas vendidas no país, 76,4% correspondem às vendas dos discos de vinil.

Para as gerações que cresceram ouvindo LPs, colecionando os lançamentos de seus artistas preferidos, essa volta é mais do que bem-vinda. Que o diga o músico e pesquisador musical Charles Gavin que, em 1999, começou a realizar projetos criados a partir do resgate de álbuns esquecidos nos acervos e catálogos das grandes gravadoras. “Apesar dos avanços do universo digital, o vinil continuou a ser uma alternativa para quem buscava se aprofundar ou simplesmente conhecer discos e repertórios de décadas anteriores, não disponíveis no formato CD. Movido pela paixão pela música e também pela cultura do álbum, na qual cresci e me eduquei, dediquei-me a muitos projetos. Foram anos de intensa pesquisa em livros, jornais, revistas, sebos de vinil, acervos de colecionadores e conversas com colaboradores. Dessa forma, foi possível devolver às prateleiras das lojas mais de 500 álbuns em seus formatos originais”, conta Gavin.

Os projetos deram tão certo que, em 2007, a convite do Canal Brasil, Charles passou a comandar o programa O Som do Vinil, que, ao longo de 16 anos, entrevistou artistas e produtores sobre os bastidores de discos fundamentais na história da música brasileira, tornando-se um clássico da TV a cabo. “Foram produzidos 357 episódios, distribuídos em 16 temporadas. Desde o início, procuramos organizar uma cartografia abrangente e diversificada da música brasileira, por meio da seleção de álbuns emblemáticos, tendo como critério sua relevância musical e cultural. O Som do Vinil foi o projeto em que pude aplicar minha experiência como músico para conduzir as entrevistas sob outros ângulos, o que acabou sendo uma característica do programa”, ressalta Gavin, visionário em sua aposta no formato.

Mas, para chegar às prateleiras, há que se fabricar as bolachas. Dois anos depois da estreia do programa de Charles Gavin, em 2009, os proprietários da Deckdisc, com o experiente produtor e empresário João Augusto à frente, adquiriram a antiga Polysom, fábrica que havia sido desativada em 2007. O que pareceu loucura dentro do próprio mercado da música se revelou uma cartada de mestre. Totalmente renovada, a Polysom passou a ser a única fábrica de vinil da América Latina naquele momento: atualmente, ela atende à demanda do mercado nacional ao lado da Vinil Brasil e da Rocinante.

Para Luciano Barreira, gerente da Polysom, o aquecimento do mercado do vinil é percebido na linha de produção da fábrica: “O crescimento nas vendas de unidades impacta diretamente a atividade da fábrica, que, para atender a toda essa demanda, precisa constantemente repensar seus processos, a capacidade de produção, entre outras frentes, a fim de responder ao mercado da melhor forma possível. A propósito do crescimento contínuo observado nos últimos anos no mercado internacional de venda de discos físicos, que também ocorre no mercado interno, acreditamos que o cenário de expansão deverá se manter nos próximos anos”.

O cenário internacional é mesmo dos mais otimistas: o mercado europeu de música física registrou mais um avanço na popularidade dos discos de vinil em 2025. De acordo com a Key Production, principal agência de manufatura física musical da Europa, a produção de vinil cresceu 50% no último ano. Fazendo um recorte para o mercado no Reino Unido, um dos principais termômetros do mercado fonográfico mundial, segundo dados da British Phonografic Industry (BPI), o formato registrou alta de 10,7% no terceiro trimestre de 2025, com 1,49 milhão de unidades vendidas. Nos Estados Unidos, de acordo com o Year-End Music Report, as vendas de vinil cresceram pelo 19º ano consecutivo em 2025, com aumento de 9%, totalizando quase 48 milhões de unidades.

Para Charles Gavin, o crescimento nas vendas dos álbuns em vinil se contrapõe à natureza do serviço que o streaming apresenta. “Para muita gente, jovem ou não, o vinil é uma forma mais completa e interessante de ouvir música, é a escolha de quem leva a experiência da escuta a outros patamares. E a tendência, pelo que indicam os números, não é só que se mantenha, mas que se expanda.”

Mas, afinal, o que explica tamanho fascínio pelo bom e velho LP? “Há uma geração que nunca teve contato com a música em formato físico e que encontra nos discos de vinil a oportunidade única de vivenciar a música de forma concreta, seja por meio do objeto, da arte gráfica, do encarte ou da experiência de colocar o disco para tocar”, avalia Luciano Barreira. Gavin reforça: “Eu compro discos desde os 15 anos, é um hábito que mantenho. Provavelmente, a moçada valoriza o que eu sempre valorizo quando ouço música em vinil: a atmosfera que o formato cria, o som quente que o sistema analógico de reprodução proporciona, as letras impressas. Ouvir seu disco predileto em vinil não é, necessariamente, um ritual. Mas pode ser”.

Arte: Júlia Sousa

           

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