Se o assunto é baixo no Brasil, o nome dele é referência obrigatória. O Sintonizando desta semana recebe um dos grandes mestres das cordas: Heitor Gomes.
Com a música correndo no sangue — filho do lendário Chico Gomes — Heitor construiu uma carreira sólida, marcada por identidade e impacto. O baixista percorreu o Brasil e marcou gerações com trabalhos históricos e premiados no rock nacional, em passagens por bandas como Charlie Brown Jr. e CPM 22.
Sua jornada segue em ascensão, com parcerias ao lado de figuras centrais do rap e trap nacional, como Matuê, Filipe Ret e muitos outros nomes.
Vem sintonizar com Heitor Gomes!
Seu pai, Chico Gomes, foi sua principal influência? Foi com ele que sua história com o baixo começou?
Sim, além de ser meu grande mestre, foi com meu pai que minha história com o contrabaixo começou. Foi ali que tive as primeiras oportunidades com bandas, tocando com alunos dele que queriam montar grupos, então a gente se juntava. Naquela época, surgiram muitas oportunidades porque bandas profissionais da região procuravam músicos e contrabaixistas por indicação dele, que já tinha uma carreira consolidada.
Isso me abriu portas valiosas. Ser filho do Chico Gomes sempre foi um peso — muito positivo —, mas acompanhado da responsabilidade de honrar o sobrenome como contrabaixista. Tudo isso foi crucial para meu percurso, inclusive no Charlie Brown Jr. O Chorão era amigo do meu pai, então houve um carinho especial da parte dele em me dar espaço, me trazendo notoriedade e me colocando na vitrine.
Foi extremamente relevante ser filho dele. Até hoje somos respeitados pela história maravilhosa que ele construiu no jazz, na música brasileira e no fusion instrumental. Isso foi essencial para minha vida profissional.
Então, sim: meu pai foi meu grande incentivador, meu mentor musical, meu maior ídolo no instrumento e meu mestre. Foi quem me ensinou praticamente tudo o que sei sobre contrabaixo e música, compartilhando muita vivência e experiência. Meu pai é meu grande herói na música.
Como foi fazer parte de duas das maiores bandas de rock do país? Quais lições você leva das passagens pelo Charlie Brown Jr. e pelo CPM 22?
Fazer parte de duas grandes bandas do rock nacional foi muito importante na minha carreira e me ajudou a consolidar meu nome no circuito principal da música brasileira como contrabaixista.
São sonhos de adolescência que se tornaram realidade: gravar discos, clipes, compor, viver da música, fazer turnês, gravar DVDs, receber o carinho dos fãs, viajar o Brasil inteiro e até para fora do país, sendo premiado e prestigiado por esse trabalho. São vivências incríveis, que trazem uma sensação muito grande de realização.
As maiores lições vêm do dia a dia e da maturidade que você conquista. Costumo dizer que o Charlie Brown foi minha faculdade e minha pós-graduação, e o CPM 22 foi minha especialização, meu MBA.
Você aprende tudo o que é necessário para ser ainda mais profissional. Claro que eu já trazia muita coisa da influência do meu pai e das referências que sempre tive, mas com as bandas você aprende a lidar com momentos de maior cobrança, seja para compor ou para tocar. Muitas vezes você está cansado e precisa seguir, dar continuidade.
Esse é o know-how que você adquire fazendo parte de grandes grupos e desse meio. São aprendizados que te elevam no estúdio, na estrada e em todos os trabalhos que envolvem uma banda.
Qual foi o sentimento de ganhar o Grammy Latino com o álbum “Camisa 10 Joga Bola Até na Chuva”, do Charlie Brown Jr.?
O Grammy Latino é uma sensação de realização máxima na música. É ser aclamado internacionalmente pelo seu trabalho, pela sua música, pelas suas composições e pelo seu talento.
O prêmio traz uma sensação muito forte de conquista e chancela. É um dos níveis mais elevados de prestígio na música, uma premiação extremamente relevante. A sensação é de chegar ao topo do sucesso e do reconhecimento pelo seu esforço.
Em 2025, você trabalhou com Filipe Ret na faixa “Absolvido por Deus”. Como foi essa experiência no universo rap/trap?
“Absolvido por Deus” foi uma realização muito especial. É um arranjo incrível e, provavelmente, uma das músicas mais trabalhadas que já fiz no contrabaixo, misturando tapping, acordes e pizzicato, englobando várias técnicas do instrumento.
Você tem que ser muito bom, mas tem que ser especial. Você precisa ir ao limite sem ser over ou sair do contexto. Foi uma parceria incrível e uma conexão muito especial com o Filipe Ret, que aconteceu graças a pessoas que admiram meu trabalho, como o Daniel Hunter, parceiro de composição dele, do Poesia Acústica, do Orochi, do Chris MC, e também ao carinho do Johnny Monteiro, um dos CEOs da NadaMal, selo que também é do Filipe.
Essa experiência veio para consolidar um caminho iniciado em 2022, quando trabalhei com o Matuê no Matuê Skate Plaza, show preparado para o Rock in Rio, no Palco Sunset. Ali, já tive uma grande vivência com os gêneros. Esse movimento se intensificou com Filipe Ret e ganhou ainda mais força em dezembro, com o lançamento de “Quando Se Vai”, pelo selo CMK.
A faixa é uma parceria com Azzy e com TianKris, produtor e um dos CEOs da gravadora. O lançamento integrou o projeto Open Mic Brasil, do qual participamos no quarto episódio. O projeto já havia viralizado com MCs como Johnny e Magrão, e contou com a participação de Nog no segundo episódio. No fim, todos esses passos me levaram ao encontro de novos artistas da cena do rap e do trap.
O que te motivou a buscar formação acadêmica em música mesmo já sendo um baixista consolidado?
Essa busca começou na pandemia, em um momento em que a gente não podia exercer nossa profissão. Foi muito oportuno voltar a estudar e adquirir essa experiência acadêmica, que era um sonho antigo. Eu já me preparava para fazer faculdade de música desde os 23 anos, mas acabei sendo requisitado para tocar no Charlie Brown Jr.
Hoje, essa experiência me traz uma visão mais ampla, com o contato com professores e mestres incríveis, que têm todo um trabalho acadêmico voltado à música. Isso me deu um novo impulso, inclusive para desenvolver um lado que eu praticava menos, que é o ensino e o compartilhamento de conhecimento.
Isso reforçou muito meu desejo de seguir nesse caminho, desenvolvendo metodologias, ensinando e continuando a estudar. Quero seguir me dedicando, adquirindo conhecimento e me aprofundando cada vez mais, seja na música, nas artes ou até na musicoterapia. É um grande ganho para minha carreira e para minha vida.
Como titular da Abramus, você sente que a associação oferece o apoio necessário para sua carreira?
Acredito que hoje eu receba um carinho e uma atenção maiores por parte da Abramus, muito também pela minha relação com a Vanessa Castro, coordenadora de A&R, que está sempre disponível e receptiva às minhas necessidades.
Além disso, as ferramentas digitais e o acesso ao portal trouxeram mais autonomia para nós, associados, tornando a experiência mais prática e gratificante no cuidado com nossos direitos e recebimentos. É realmente importante.
Fotos: Rodiney Assunção/Estúdio Cromakey | Cedidas pelo artista
Arte: Júlia Sousa | Texto: Barbara Freitas