
Por Daniella Turano
A volta dos grandes espetáculos, das turnês nacionais e dos festivais consolidou em 2025 um novo fôlego para o mercado da música ao vivo. Enquanto o público vê palcos lotados e celebra grandes encontros, há outra dinâmica acontecendo nos bastidores. É ali que se move uma engrenagem invisível que determina se o compositor vai receber corretamente pelo que criou.
Em meio a esse cenário aquecido, a distribuição de direitos autorais de shows ao vivo registrou crescimento expressivo. O avanço não se explica apenas pelo volume de eventos, mas também por mudanças operacionais que transformaram a forma como esses valores chegam aos compositores. A Abramus teve papel decisivo nesse processo.
Como funciona o direito autoral de um show
No Brasil, o ECAD é o ente arrecadador legitimado pela Lei de Direitos Autorais para cobrar a remuneração pela execução pública de músicas em shows.
O cálculo varia conforme o tipo de evento – bilheteria, cachê, modalidade e natureza do espetáculo -, e a cobrança de direitos autorais é aplicada conforme o regulamento de arrecadação.
Mas há um documento central nesse processo: o set list. “É obrigação do produtor do show enviar ao ECAD o set list do espetáculo. Esse documento é fundamental para identificar as obras executadas e, consequentemente, seus compositores”, explica Fernanda Audi, diretora de Operações da Abramus.
A partir da identificação das músicas executadas e dos artistas participantes, a divisão proporcional é feita para remunerar os compositores. Sem essa informação, a cadeia trava.
“O risco é para o compositor. Sem o set list não há como saber as obras interpretadas e, dessa forma, não há como saber quem deve ser remunerado”, reforça Fernanda.
O que mudou em 2025: desmembramento por intérprete e automação
Durante anos, um problema recorrente impedia que muitos valores fossem distribuídos com agilidade: quando um show tinha múltiplos intérpretes e nem todos os roteiros eram enviados, 100% da receita ficava retida até a identificação completa do repertório.
Foi a Abramus que sugeriu ao ECAD o desmembramento dos shows por intérprete.
“A partir do desmembramento, proposto pela Abramus, passou a ser possível distribuir as receitas parcialmente para as obras identificadas”, explica Fernanda.
Inicialmente, o processo era manual e moroso. Após anos de solicitações, o sistema foi automatizado, em setembro de 2024, e o resultado apareceu rapidamente.
Segundo dados apresentados pelo ECAD, mais de 68% dos créditos distribuídos referentes a shows cujos roteiros não foram enviados pelos promotores tiveram origem em roteiros encaminhados pela Abramus.
Ainda de acordo com o relatório anual do ECAD, o segmento de Shows registrou crescimento expressivo nos repasses (15%), e no envio de roteiros (305%), comparando 2024 e 2025. “No último ano, foram localizados ou recebidos mais de 9 mil repertórios, o que possibilitou a distribuição de cerca de R$ 50 milhões em 2025” – conforme destacado no documento.
A engrenagem invisível: agenda, matching e solicitação de roteiros
Esse avanço não é apenas reflexo do mercado. Ele também decorre de um trabalho ativo e permanente de monitoramento.
A Abramus envia agendas de shows ao ECAD a partir das informações recebidas dos titulares via site ou e-mail e acompanha a arrecadação até a distribuição.
Entre 2024 e o primeiro semestre de 2025:
Quando o produtor não envia o roteiro, começa outra frente de atuação.
A partir do relatório “Conta-Show ECAD”, a TI da Abramus realiza um matching para identificar artistas associados e seus contatos. O setor de shows entra em ação e solicita os roteiros diretamente aos artistas.
“Solicitamos ao artista e enviamos ao ECAD para providências de distribuição. Hoje isso é feito de forma parcial no show, mensalmente, para garantir o máximo de distribuição possível aos nossos titulares”, explica Nádia Crasto, especialista e responsável pela área de shows da Abramus.
O volume de solicitações demonstra a dimensão do trabalho:
Quando a distribuição é indireta
Nem todos os eventos seguem o modelo.
Em apresentações classificadas como “música ao vivo” em estabelecimentos mensalistas, a distribuição é trimestral e feita por amostragem, com base em gravações realizadas pelo ECAD.
Já shows com arrecadação de até R$ 500 seguem o critério de Show Distribuição Indireta (SDI). Caso o roteiro não seja enviado até novembro, os valores são distribuídos de forma indireta na distribuição “extra de show”.
Por isso, a orientação aos produtores é fundamental.
“É importante que os produtores tenham orientação maior dos nossos autores e representantes sobre a necessidade de envio do roteiro ao ECAD e também da informação de agenda à Abramus”, reforça Nádia.
Agenda organizada: impacto direto na renda
O envio correto da agenda e do repertório faz diferença concreta na renda do compositor.
“Nos casos em que o produtor não manda o set list, a ajuda do compositor no envio desse repertório é fundamental para identificarmos as obras que serão remuneradas, garantindo a distribuição dos valores arrecadados”, afirma Fernanda.
Sem a informação correta, o pagamento pode atrasar ou ocorrer de forma indireta, reduzindo a previsibilidade da receita.
“Estamos trabalhando em melhorias para agilizar o matching, tornar o processo mais rápido e evoluir nessa frente”, adianta Nádia.
Além do trabalho técnico, a Abramus reforça a importância de que autores, escritórios e representantes orientem os produtores sobre a necessidade de envio correto dos roteiros ao ECAD e das agendas à associação. Essa integração é determinante para evitar perdas e garantir previsibilidade na remuneração. Se 2025 marcou uma virada na eficiência da distribuição de shows, o próximo passo é ampliar a automação e reduzir as perdas por falta de informação. Porque, no fim das contas, por trás de cada show realizado há um direito que precisa ser garantido e um compositor que precisa receber.
Arte: Júlia Sousa