A história do samba-enredo e o olhar de quem compõe

A maior associação de música e artes do brasil

ASSOCIE-SE

A maior associação de música e artes do brasil


ASSOCIE-SE PESQUISA DE OBRAS CADASTRO DE OBRAS ISRC
VOLTAR

A história do samba-enredo e o olhar de quem compõe

Por Daniella Turano

O samba começa muito antes da avenida. Começa com a quadra ainda vazia, com o papel recebendo os primeiros versos, com a melodia testada em voz baixa. Antes de a avenida se vestir de fantasia, alegoria e julgamento, o Carnaval já existe ali, na composição.

Antes de virar enredo, o samba não carregava a obrigação de explicar uma história. Nos primeiros desfiles das escolas de samba, no início do século 20, cantava-se o que brotava da vida: o cotidiano, a religiosidade, a política, a memória das comunidades. O desfile era canto, encontro, afirmação coletiva.

Com o tempo, especialmente a partir das décadas de 1930 e 1940, esse canto ganhou outra função. À medida que as escolas se organizaram e os desfiles passaram a ser julgados, o samba deixou de ser apenas trilha sonora e passou a conduzir a narrativa do desfile, a organizar o percurso da escola pela avenida, a explicar para o público e para os jurados o que estava sendo contado. Nascia ali o samba-enredo, como o eixo em torno do qual tudo gira.

Essa transformação mudou também o papel do compositor. Criar um samba-enredo passou a exigir a tradução de uma sinopse em música, equilibrar poesia e clareza, emoção e regra, beleza e funcionalidade. Um trabalho que exige técnica, sensibilidade e resistência.

É nesse território, entre criação e disputa, que atuam Cláudio Russo, Alemão do Cavaco e André Diniz. Três trajetórias diferentes, atravessadas pela mesma experiência: a de viver o Carnaval a partir da composição.

O samba como modo de vida

Cláudio Russo carrega quase quatro décadas dedicadas ao samba-enredo. Começou no Império do Marangá, uma escola que já não existe, e construiu uma trajetória que o levou a algumas das mais importantes agremiações do Carnaval, como Portela, Beija-Flor, Viradouro, Paraíso do Tuiuti, Mocidade e Renascer de Jacarepaguá. Ao longo desse percurso, apresentou mais de 200 obras em Carnavais dentro e fora do Brasil, um caminho marcado por títulos, estandartes e sambas que ficaram na memória coletiva.

Para ele, o samba-enredo nunca foi apenas um gênero musical. É um modo de vida. “São 37 anos compondo, ganhando, perdendo, disputando e desfilando. Isso é para sempre”, diz.

Vieram, nesse trajeto, sambas campeões que consagraram seu nome na avenida. Pela Beija-Flor, assinou títulos como Manõa, Manaus, Amazônia, Terra Santa, em 2004, Áfricas – Do Berço Real à Corte Brasiliana, em 2007, e Macapaba: Equinócio Solar, em 2008. Já pela Viradouro, foi campeão com o samba Viradouro de Alma Lavada, que homenageou as Ganhadeiras de Itapuã, em 2020, marcado pelo verso “Ó, mãe! Ensaboa, mãe”. E voltou a vencer com Arroboboi, Dangbé em 2024, repetindo a consagração. Ao todo, acumula cerca de dez Estandartes de Ouro ao longo da carreira.

Mas vieram também obras que, mesmo sem vitória oficial, alcançaram outro tipo de reconhecimento. É o caso do samba do Paraíso do Tuiuti, Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta a Escravidão?,em 2018, que atravessou o Carnaval além das notas e se fixou no imaginário popular. “A escola era desacreditada, apontada como possível rebaixada, e acabou vice-campeã, perdendo por um décimo. Muita gente chama esse samba de ‘campeão do povo’”, lembra. Para Russo, esse episódio marcou profundamente sua trajetória, talvez como nenhum outro.

Essa diferença não é detalhe. O compositor faz questão de separar vencer a disputa de vencer o desfile. “Ganhar a eliminatória é importante. Mas ganhar na avenida é consagração. Quando o samba vence o desfile, ele fica marcado para sempre. A escola nunca esquece aquele campeonato.”

Hoje, no entanto, o caminho até essa consagração é cada vez mais difícil. Os enredos se tornaram mais complexos, as regras, mais rígidas, e a disputa ficou mais cara. O compositor precisa ser sofisticado sem perder comunicação. Popular sem ser simples. “Acho até uma dificuldade boa, porque desafia o compositor. Escola de samba é popular, mas não se aceita mais melodia básica. O desafio está em não ir nem demais para o céu, nem demais para a terra”, resume.

A criação sob julgamento

Essa pressão aparece com força na fala de Alemão do Cavaco. Compondo sambas-enredo desde 1992, ele atravessou diversos momentos das disputas, com passagens marcantes por escolas como a Gaviões da Fiel, em que assinou o samba campeão Xeque-Mate, em 2002, e pela Estação Primeira de Mangueira. Essa trajetória faz com que conheça de perto o desgaste das seletivas e a rigidez do processo atual.

Para Alemão, o samba-enredo já nasce sob julgamento. “O compositor precisa buscar novidade, riqueza poética e melódica, mas não pode sair da linha do regulamento. Se sair, é punido.” Com o tempo, ele viu a disputa deixar de ser decidida apenas pela música. Estrutura de palco, gravação, torcida organizada, estratégias internas e investimento financeiro passaram a pesar cada vez mais. “Em algumas escolas, o grande samba não é o único fator decisivo”, conta.

Nesse contexto, perder faz parte do jogo, e aprender a lidar com isso é quase uma condição de sobrevivência. “Quem não estiver preparado para perder samba-enredo jamais estará preparado para ganhar. Perde-se muito mais do que se ganha, e é preciso entender que se trata de um concurso, no qual muitos fatores influenciam o resultado.”

Hoje, Alemão vive o Carnaval de outro lugar: atua como diretor musical da Salgueiro. Acompanhar o processo do outro lado, de certa forma, amplia a sua leitura crítica sobre o sistema. Ainda assim, ele reconhece que existe um momento insubstituível na criação. “É um processo tenso, inseguro, emocionalmente pesado. Mas, quando os segmentos começam a cantar espontaneamente, quando a energia se constrói sem esforço, a gente percebe: o samba deixou de ser só da gente.”

Entre regra, poesia e destino

Para André Diniz, o samba-enredo representa tanto um ponto de chegada quanto um momento de virada. Com uma trajetória profundamente ligada à Vila Isabel, títulos importantes e parcerias com nomes históricos do samba – como Martinho da Vila, Paulinho da Viola e outros ícones da música brasileira –, ele reconhece que vive hoje uma fase de transformação. “O samba-enredo sempre foi um espaço central na minha carreira. Ganhei prêmios, vivi o Carnaval intensamente, compus com gente que admiro muito. Mas também sinto vontade de voar além desse território que sempre foi meu espaço habitável.”

Alguns sambas ajudam a contar essa história. O primeiro título na Vila Isabel, em 1994, Sonho de um Sonho, marcou o início desse percurso. Vieram depois outras conquistas, como em 2006 e no Carnaval de 2013, com Festa no Arraiá, parceria com Martinho da Vila que se tornou uma das mais lembradas pelo público e ocupa um lugar especial na sua trajetória. Hoje, Diniz segue com sambas em diversas avenidas – Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Uruguaiana – e também Carnavais na Argentina, ampliando sua experiência além de uma única escola ou um território.

Do ponto de vista criativo, ele define o samba-enredo como uma das formas mais complexas da música brasileira. Diferente do samba, que nasce de uma vivência íntima ou de uma emoção pessoal, o samba-enredo começa fora do compositor. “Ele nasce de um tema imposto, de uma pesquisa, de um recorte histórico. É um quebra-cabeça. Você precisa colocar emoção, melodia e poesia dentro de limites muito claros, pensando na evolução da escola e na forma como aquele samba vai conduzir o desfile.” Ao contrário de outros sambas, é uma criação que já nasce com função, tempo e julgamento marcados.

Ainda assim, cada obra deixa vestígios. “Todo samba ensina. Mesmo aquele que perde cumpre um papel artístico, social e formativo”, afirma. Mas o samba campeão ocupa outro lugar. “É alívio. É consagração. É a sensação de que aquela criação encontrou seu destino.”

Como Cláudio Russo, Diniz também aponta a desvalorização do compositor de samba-enredo. A obra é sazonal, circula por poucos meses e, passado o Carnaval, desaparece do centro da cena. “O compositor de samba já é pouco valorizado. O de samba-enredo, menos ainda. Existe uma hierarquia que não corresponde à complexidade da obra.” Russo completa: “O samba fica, o compositor some”.

Mesmo assim, nenhum deles fala em parar. Há um pacto íntimo com o Carnaval que resiste a derrotas, custos e frustrações. Russo define esse acordo pessoal de forma simples: “Enquanto eu me emocionar, enquanto o coração bater mais forte e a lágrima cair ao ouvir o samba na avenida, eu continuo. Quem não faz com amor pode até compor. Mas não fica bom”.

Talvez seja isso que mantenha o samba-enredo vivo. Antes da avenida, antes do aplauso e da nota, ele nasce no silêncio de quem compõe e segue sendo uma das formas mais profundas, complexas e emocionantes de contar o Brasil – em verso, melodia e pertencimento.

Curiosidades históricas

• O samba-enredo nasceu no Rio de Janeiro na década de 1930 como um subgênero do samba ligado às escolas de samba e à profissionalização dos desfiles.

• Embora haja controvérsia, registros históricos mostram que O Mundo do Samba, da Unidos da Tijuca, apresentado em 1933, é considerado um dos primeiros sambas-enredo da história – um marco na construção do gênero.

• Até meados dos anos 1940, os desfiles ainda permitiam improvisação durante o canto. Em 1946, a improvisação foi proibida, e todas as escolas passaram a apresentar sambas-enredo previamente compostos, consolidando sua função narrativa e competitiva.

• A partir dos anos 1950, os sambas-enredo começaram a explorar temas ligados à cultura afro-brasileira, como tradições africanas, orixás e figuras históricas, incorporando também crítica social e memória à própria festa carnavalesca.

Arte: Júlia Sousa | Fotos: Direitos reservados

           

SIGA-NOS NAS
REDES SOCIAIS

ASSINE NOSSA NEWSLETTER