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Longe da Igualdade

Publicado em 10/03/2022

É hora de retomarmos o debate sobre a participação feminina na execução pública de músicas. Vamos rever os principais pontos deste cenário, tendo em mente as mudanças que gostaríamos de ver.

Quando há 1 ano recebemos o relatório do Ecad “O que o Brasil Ouve – Edição Mulheres na Música” (veja aqui) logo percebemos o grande abismo de gênero que há neste nosso mercado. Apesar de visíveis avanços recentes, a desigualdade ainda perdura e nos faz pensar em quais rumos tomar para revertê-la.

Primeiro, vamos rever o cenário:

Tivemos avanços importantes…

  • Em 2011 tínhamos 27.653 mulheres na base de filiados do Ecad. Hoje são 385.940. É um crescimento expressivo de 1200%.
  • O maior crescimento foi na categoria de autoras/compositoras, que saltou de 23 mil em 2010 para mais de 365 mil em 2020 (+ 1474%).
  • O número de musicistas mulheres cresceu 275% na década.
  • A parte de produção fonográfica e edição também apresentaram bons avanços, com crescimento na participação de mulheres de 212% e 473% respectivamente.
  • 68,5% dos valores distribuídos às mulheres em 2020 foram para artistas brasileiras.

… Porém, a equidade ainda está distante

  • Apenas 7.1% dos valores distribuídos em 2020 foram destinados às mulheres.
  • Nos últimos 5 anos a média de participação feminina no top 100 autores com maior rendimento foi de 4%, caindo de 7% em 2016, para só 2% em 2020.
  • Entre as 300 mil músicas mais tocadas nos últimos anos, apenas 14% têm mulheres entre os autores.
  • Os homens ainda representam 85,1% da base de titulares do Ecad. Mulheres representam 11% e os “sem gênero” são 4%.

Logo de cara alguns questionamentos surgem:

  • Os avanços da última década se manterão?
  • Este ritmo de crescimento será suficiente para eventualmente equilibrar a balança?
  • Quanto tempo este processo ainda vai levar?

E o mais importante:

  • O QUE PODE SER FEITO PARA ATIVAMENTE IMPULSIONAR O MERCADO RUMA À EQUIDADE?

Nos deparamos então com um projeto da USP e de universidades britânicas, que trabalhou com um grupo diverso de mulheres musicistas, na busca por entender a realidade e as possibilidades de avanço.

O AmplifyHer se propôs a ser “um projeto piloto que não só estudasse a realidade das mulheres na música brasileira, mas que também tivesse uma vertente proativa, de formação e promoção de trabalho em rede, e que servisse de amplificador das vozes dessas mulheres.”

A primeira boa notícia na visão do pesquisador principal, o português José Dias, é que o debate sobre esta disparidade de gênero está, felizmente, como talvez a principal pauta do mercado atualmente, nos fazendo crer que muitas boas mudanças ainda virão.

O estudo realizado com um grupo de 12 mulheres musicistas, em sua maioria com atuação na cidade de São Paulo, ligadas ao jazz, à música experimental, à música erudita e à música popular, que visa sempre a mudança, se ateve em promover a diversidade e derrubar a falácia da mulher na música como uma “entidade” única. Por isso envolveu grupos etários que correspondem a pontos distintos na carreira: novos talentos, entre os 20 e 39 anos de idade, e artistas estabelecidas, entre os 40 e 55 anos, além de metade das participantes ser negra, enquanto a outra é branca.

Além de ser mais fiel à realidade brasileira, esse recorte permite uma visão mais rica dos desafios e possibilidades. Ficou muito claro o quanto as mulheres negras têm ainda mais dificuldade em “furar a bolha”, apontando o quanto a dificuldade de acesso a recursos se mostra presente em suas trajetórias.

No recorte etário se percebe uma maior conscientização da necessidade de mudança na geração mais recente, apesar de se depararem com os mesmos entraves das décadas passadas. “A dificuldade em ter filhos, em gerir a vida familiar e carreira profissional, a hipersexualização e a discriminação que vem, por vezes, de colegas masculinos” são alguns dos problemas que ainda se perpetuam.

Ficou evidente, que apesar de haver disparidade em outros países da Europa por exemplo, a realidade brasileira é mais extrapolada, uma vez que reflete em geral uma sociedade mais machista e racista que a européia. Dados como os de que 76% das profissionais da música não chegam a ter filhos e 84% dizem ter sofrido discriminação sexual, e relatos de mulheres brasileiras sentirem receio de ir tocar em determinados lugares a determinadas horas explicitam o tamanho do problema.

Pois bem. O que fazer então?

Primeiro é expor o problema, como o projeto e nós estamos fazendo aqui. A partir da maior visibilidade, será possível promover mudanças com a construção de políticas públicas específicas, desenvolvidas junto aos órgãos competentes.

A forma de expor também é bastante relevante. O AmplifyHer resultou em um riquíssimo e impactante material em vídeo, que pode ser usado em salas de aula e rodas de debate, ampliando sua força e alcance. Você pode acessar todos os relatórios e vídeos aqui.

Por último, é vital promover a união. Não só das mulheres através de redes de apoio femininas e feministas, que permitem o compartilhamento de experiências e o enfrentamento das exclusões, mas também trazendo o homem para o debate. “Quanto mais cedo percebermos que todos nos beneficiamos com uma indústria igualitária em termos de gênero, melhor. Um festival que tenha artistas masculinos e femininos em igual número é relevante, é diferente, e oferece mais que música – oferece um modelo de sociedade. Quando os curadores, diretores e promotores masculinos de festivais perceberem isso, teremos meio caminho andado.”

Pare e pense um pouco: “Quantas compositoras são estudadas nas escolas de música, quantas maestrinas dirigem orquestras de juventude, quantas contrabaixistas, percussionistas, guitarristas ou saxofonistas são convidadas para dar master classes?” São esses pequenos passos que vão fazer toda a diferença.

Como bem sabemos, o caminho ainda é longo e árduo, mas nem por isso deixaremos de segui-lo juntos e de cabeça erguida. Então faça sua parte, promova e dê espaço para as mulheres sempre que possível e compartilhe sua opinião nos comentários. Assim, vamos construir o futuro que queremos.

Fontes: Ecad e USP.

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