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Sintonizando com Rafael Bittencourt

Foto: Gabriel Costa

Publicado em 29/01/2021

Rafael Bittencourt é um artista e guitarrista brasileiro com reconhecimento internacional pela sua singular sensibilidade, técnica, estilo. Fundador da mundialmente aclamada banda Angra, uma das primeiras bandas de symphonic metal do mundo com mais de 5 milhões de discos vendidos, ele fala com exclusividade para a Abramus sobre sua carreira, dicas para os futuros guitarristas e novos projetos.


Foto: Henrique Grandi

O início da carreira de um guitarrista é cercado por algumas dúvidas. Entre elas, como e onde estudar. Qual o caminho percorreu para profissionalizar-se e qual recomendaria aos aspirantes à guitarra?

Na verdade acho que existem diferentes caminhos a percorrer e não somente um. A primeira coisa que o aspirante a guitarra deve ter é uma postura ativa e não esperar que os professores tragam solução para seus anseios. Se questionar sobre o que realmente quer com a guitarra, porque ela é um instrumento muito versátil, muito amplo! Da mesma forma que você pode se especializar em jazz, country, rock entre tantos outros estilos, você também pode conhecer um pouco de todos para chegar no som que você espera; por isso ser questionador, curioso, estudioso e dedicado são características fundamentais para quem realmente quer se profissionalizar.

Você pode se imaginar como professor, como um cara que vai acompanhar outros artistas, um cara que vai construir uma carreira como artista, e essas são somente algumas alternativas. Quanto mais você sabe o que quer, mais fácil encontrar respostas para as suas perguntas.

Hoje em dia tem muito material on-line (como cursos e informações sobre o instrumento em si), coisa que não existia na minha época. Quando eu comecei, para obter informação eu tinha que correr atrás, e sempre fui atrás de grandes conhecedores do instrumento, mas principalmente de música. E tendo essa postura ativa, busquei por grandes professores como o Mozart Mello, o Faiska Borges, o Joe Moghrabi e o próprio Wander Taffo com a escola dele.

Claro que hoje os aspirantes também podem fazer isso, até porque a comunicação é muito mais rápida. Tive também a grande oportunidade de estudar fora do Brasil, estudei guitarra nos EUA. Quando voltei fiz faculdade de música – sou formado em Composição e Regência – e o meu caminho principal dentro da música é a composição. Para mim sempre foi muito claro que eu queria saber como compor uma boa música.

Na composição você não precisa de técnicas tão sofisticadas, mas precisa ter feeling. Sempre procurei compor canções, ou seja, música com letra para banda (banda de rock). Esse “querer” sempre foi muito claro na minha cabeça, então toda informação, vivência, aprendizados em geral fui convertendo para essa necessidade. Por isso é tão importante estar claro o que o aspirante a guitarra realmente quer para a sua carreira, saber filtrar o que realmente importa para ele.

Entregar essa responsabilidade de escolha para o professor é mais difícil, porque o desejo do caminho a trilhar é algo pessoal, é como colocar o seu destino, a sua escolha na mão do outro, e isso não é justo com o professor e muito menos com ele mesmo. Ter essa postura ativa, se aprofundar na informação através de questionamentos certamente será a melhor forma de descobrir qual o caminho a seguir.



A sua identidade compõe, além de sua personalidade, a sua musicalidade. Sempre indagador, o quão importante é imprimir na música a sua essência?

Para mim sempre foi importante construir uma imagem como artista, não só um guitarrista. Um artista mesmo, um cara que expressa ideias, que traz reflexões, que sensibiliza as pessoas. Na minha arte sempre estão a minha personalidade e a minha musicalidade.

Se a escolha fosse, por exemplo, acompanhar outros artistas, tenho a consciência de que precisaria ter uma flexibilidade, que precisaria saber me adequar à identidade e às necessidades daquele artista. 

Se a escolha é ser um artista com carreira própria, compondo suas próprias músicas, é preciso um diferencial, isto é, encontrar uma forma de se destacar na multidão de alguma maneira. E aí o estudo e a alquimia para fundir e expressar sua própria personalidade e musicalidade na sua arte nunca termina, é preciso ter consciência do quão fundamental isso é.

Se o cara vai ser um professor, ele precisa ter contato com o máximo de informações possíveis, porque ele vai levar essas informações para diferentes demandas, necessidades e alunos. 

Seja qual for a sua escolha, mais uma vez o mais importante é entender o caminho que quer seguir na carreira musical.


Foto: Raony Correia

O músico moderno estende o seu campo de atuação para além do palco. Lecionar, palestrar e atuar digitalmente, entre outras funções, faz parte do escopo. Como se adequar e atualizar com a atual demanda por informação?

Boa pergunta. Porque no fim das contas, nós artistas e músicos temos que atuar em vários campos diferentes. Por mais que a gente tenha uma especialização, ou seja, um campo  principal, uma fonte de renda principal, é preciso atuar em diferentes áreas para poder justamente se sustentar. Esse é um caso pouco específico aqui do Brasil; eu conheço músicos de outros países, que conseguem se dedicar mais profundamente a um desses: o professor é professor, o palestrante é palestrante, quem tem curso on-line vive disso também, porque cada um desses demanda dedicação e tempo. 

Consciente dessas necessidades, sabemos que atingir excelência em todos esses campos é mais difícil. No momento em que você tem que dividir seu tempo, dividir sua dedicação, muitas vezes você não atinge excelência nem como artista e nem como professor, e acaba trazendo também frustração. Aliás a música, você precisa amar muito para escolher essa carreira, porque ela é sim ainda, especialmente nos países que não tem muito apoio a cultura, vista como um artigo desnecessário. Lutamos muito mais para sobreviver do que em outros lugares. Mas hoje também tem a facilidade de você poder se auto gerir. 

O músico, o artista, ele consegue produzir a música num home studio, ele mesmo consegue subir essa música nas plataformas digitais, ele consegue divulgar através das mídias sociais, então é importante que o músico conheça um pouco de todo esse universo, e não apenas o universo musical (estritamente musical). Hoje para ele levar a música dele para um público, muito provavelmente vai depender do próprio esforço, da própria expertise em entender essas plataformas, esses mecanismos e essas diferentes tecnologias. Os cursos também, hoje em dia, graças a Deus, como existe muita demanda para aprendizado on-line, os músicos todos podem também criar uma fonte de renda através dos cursos digitais, dos cursos que são vendidos e lecionados à distância.



Além do Brasil, a sua performance percorre mundo à fora com o merecido reconhecimento. Existe uma diferença significativa entre o mercado nacional e o internacional?

Olha, existem muitas semelhanças e algumas diferenças grandes, e também particularidades de cada mercado: o Japão é uma coisa, a Itália é outra coisa, a França é outra, a Alemanha é outra. Sendo assim, eu dividiria em 3 grupos: o grupo de semelhanças, o grupo de diferenças radicais entre o Brasil e o resto do mundo, e o terceiro grupo que são as particularidades mesmo de cada mercado. A primeira coisa é entender o público que você quer atuar. É um segmento, é um público mais geral, mais amplo? Ou esse segmento tem um perfil parecido no mundo inteiro? Por exemplo, eu atuo no segmento heavy metal. O heavy metal tem um perfil muito globalizado, é muito unido no mundo todo. Então existem blogs e sites de heavy metal que são visitados por pessoas do mundo inteiro e existem outros blogs e sites de rock e heavy metal que são específicos de cada país, escritos na língua daquele país. Então para ter atenção desses diferentes blogs, vamos chamar assim, é preciso se comunicar com eles. 

Criar uma música, um release e muitas vezes o caminho é um grupo ainda menor dos fãs vamos dizer, de um estilo específico, porque dentro do heavy metal, que já é um segmento, tem outros segmentos e dentro desses outros segmentos você tem as bandas preferidas de nichos de público, e o que você vai fazer? Você vai tentar chegar nessas pessoas dizendo “olha, minha banda faz um som semelhante e tal”. Mas hoje eu vejo que o mercado brasileiro para os músicos que são produtores de música de rock, ele é muito subestimado. 

Temos muita gente apaixonada por rock no Brasil, e existe um mito que fora do Brasil dá-se mais valor, o que não é verdade. Acontece que o público brasileiro é muito apaixonado por rock e heavy metal, porém muito exigente também. Eles valorizam as bandas brasileiras, mas tem o comparativo das bandas internacionais e eles querem, justamente, que as bandas nacionais tenham a mesma categoria, a mesma excelência que as várias outras internacionais. 

O interessante seria para as bandas brasileiras focar mais na qualidade e na criação, no fortalecimento de uma cena mais auto-sustentável aqui no Brasil, e essa auto sustentabilidade é como se fosse um sistema, um organograma onde precisa de público, escola de música, instrumentos acessíveis (mais baratos), produtores de áudio, estúdios, casas de show que toquem essas músicas, e lugares também na internet, sites que também conectem todas essas pessoas, a mídia também desempenha esse papel. Tudo isso deve funcionar de maneira mais auto-sustentável e para isso acontecer todos que estão envolvidos, deveriam conseguir olhar de fora e entender que fazem parte de um organograma, de um sistema, mas o que acontece é que não existe muito material que informe sobre isso. 

Percebo também que não existe muita pesquisa, muito estudo sobre a importância cultural e econômica do heavy metal no Brasil, e isso também acaba sendo subestimado, porque o heavy metal movimenta escolas de música, movimenta o interesse por estudar música, movimenta o interesse por comprar instrumentos, movimenta o interesse por estúdios de gravação, de ensaio, interesse também de tocar nos bares, então ele movimenta uma economia, mas não se sabe ao certo quanto. 

Então essa ignorância mesmo, essa falta de conhecimento, falta de acesso a essa informação, faz com que essas ações sejam muito esporádicas, individuais e pouco coletivas. Acho que esse é o grande diferencial do mercado nacional e internacional. No mercado internacional, geralmente as pessoas sabem melhor o campo que elas estão atuando e qual o papel que desempenham, qual o espaço que elas podem encontrar e como funciona a máquina da qual fazem parte. Eu acho que o pensamento do brasileiro, do músico brasileiro, ao menos a maioria dos alunos com quem eu venho conversando é sempre muito mais artístico do que lógico, é muito mais estético. A preocupação é muito mais em fazer um negócio legal, do que criar especificamente um produto e posicioná-lo no mercado.



O momento pelo qual passamos alterou nossa forma de interação e trabalho, tendo afetado a continuidade, entre outros, do setor musical. Quais são os próximos passos da sua carreira?

Bom, eu já tinha programado 2020 como um ano de reformulação: reformular o Angra, minha carreira pessoal e também reformular a minha vida pessoal. Eu passei por muitas transformações pessoais nos últimos anos, então 2020 já era um ano de planejamento, e assim foi. 

Tive uma dificuldade por conta de não poder me reunir fisicamente com meus parceiros, mas por outro lado aprendi (acho que todo mundo aprendeu) a trabalhar de maneira remota em home office etc, fazendo reuniões via meet, via zoom, inclusive tecnologias que eu nem conhecia de conversa e acredito que a maioria das pessoas também se familiarizou com essa forma de se relacionar. E agora o próximo passo é pôr em prática esse planejamento. 

Eu finalizei um curso de Planejamento de Design Estratégico, venho estudando violão, guitarra, voz e composição (venho estudando bastante). Também mudamos de escritório, com isso trazendo um novo empresário para o Angra. São vários produtos, como o relançamento de álbuns, produtos de cursos on-line, palestras, novas músicas, novos lançamentos entre outros … Tudo isso é fruto desse ano de “incubamento”, já que ficamos incubados aqui, semeando os planos futuros. Estamos colocando todas as ideias discutidas ao longo de 2020 para que 2021 seja um ano cheio de novidades para nossos fãs.


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