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Dominguinhos: quando o aprendiz vira mestre

Todo São João é a mesma coisa: gente animada, comidas típicas, bandeirinhas, sanfoneiros e um arraiá cheio de arrasta pé e dança. Foi da sanfona nordestina que saíram letras e melodias que perpetuam, ao longo do tempo, nas Festas Juninas de norte a sul do Brasil, e muito disso devemos a José Domingos de Morais, mais conhecido como Dominguinhos.

 

Infância e encontro com Luiz Gonzaga

“Neném do acordeon”, como era chamado na infância, começou sua brilhante e, de fato, eterna passagem pela música brasileira por influência de seu pai, Mestre Chicão, conhecido sanfoneiro e afinador de sanfonas, que o presenteou com uma sanfona de oito baixos quando ele tinha apenas seis anos. São muitas as feiras livres e as portas de hoteis que ouviram Dominguinhos e seus dois irmãos, Moraes e Valdomiro – o trio Os Três Pinguins -, tocarem em Garanhuns, cidade natal dos meninos.

 

Numa dessas vezes, ocorreu o que podemos chamar de “feliz coincidência”: Luiz Gonzaga hospedou-se em Tavares Correia, um dos hoteis cuja porta o trio costumava chamar de palco. Naquele dia, Os Três Pinguins foi chamado para tocar dentro do hotel, especialmente para o Rei do Baião e seus acompanhantes.

 

Algum tempo depois, em 1954, Dominguinhos foi para o Rio de Janeiro com seu pai, devido às dificuldades que enfrentavam em Garanhuns, e aproveitaram para procurar por Luiz Gonzaga, que morava no Méier, na zona norte da cidade. A partir daí, Gonzagão virou o verdadeiro mestre de Dominguinhos: levava-o aos seus shows, ensaios e gravações, além de presenteá-lo com uma sanfona.

 

Neném do Acordeon vira Dominguinhos

Dessa forma, Neném do Acordeon passou a participar de programas de rádio e a se apresentar em casas noturnas, aprendendo outros estilos de música, como chorinho e samba.

 

1957 foi um ano marcante por dois motivos: Gonzagão apelidou o Neném do Acordeon de Dominguinhos, que, na mesma época, fez sua primeira gravação profissional, tocando sanfona na música “Moça de feira”, com seu padrinho artístico. Dez anos depois, Dominguinhos passa a integrar o grupo de Gonzaga, o que fez com que fosse reconhecido como músico e arranjador e se aproximasse de artistas consagrados.

 

Com a benção de “herdeiro artístico” de Gonzaga, o sanfoneiro realizou trabalhos junto a Nara Leão, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Elba Ramalho, Anastácia, Chico Buarque, Toquinho e outros. Consolidou sua carreira musical englobando gêneros musicais diversos, que iam da bossa nova, passavam pelo forró e iam até o jazz e o pop.

 

Prêmios e músicas memoráveis

Em 2002, Dominguinhos venceu o Grammy Latino com o CD “Chegando de Mansinho”. Uma década após, foi novamente o vencedor da premiação na categoria Melhor Álbum de Raiz Brasileiro, com o CD e DVD “Iluminado”.

 

“Eu Só Quero Um Xodó”, faixa do álbum “Iluminado”, foi composta por Dominguinhos e Anastácia e trouxe a sanfona e as raízes do nordeste para a época em que todos estavam admirados com a Bossa Nova. Já foi regravada por diversos artistas, inclusive em versões estrangeiras, além de ser certeza nas Festas de São João.

 

Os dois também compuseram “Tenho Sede”, um forró para dançar junto, mais tarde gravada por ícones da música brasileira, como Gilberto Gil.

 

“De Volta Pro Aconchego”, composta ao lado de Nando Cordel, ganhou versão na voz de Elba Ramalho e foi tema do protagonista da novela “Roque Santeiro”, em 1985.

 

Não há dúvidas quanto à contribuição imensa que Dominguinhos, que nos deixou em 2013, fez para a história da nossa música. Suas letras e sua sanfona fizeram – e fazem até hoje – parte da vida de cada brasileiro, também por estarem imortalizadas nas vozes de gigantes da MPB, além da sua própria.

Dominguinhos não só concluiu sua missão – ser o discípulo e herdeiro artístico de Luiz Gonzaga -, mas fez muito mais: com muito esforço, talento e dedicação, passou de aprendiz a mestre e foi consagrado o maior sanfoneiro do Brasil.

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