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Sintonizando com Dexter

Ícone do rap nacional, Dexter é autor de rimas afiadas que abordam temas sociais e políticos. Sua trajetória na música é marcada por muita autenticidade e pela capacidade de transmitir mensagens que dialogam com várias gerações.

O rapper bateu um papo com a Abramus e você confere abaixo a entrevista completa!

1) Você é um dos maiores representantes do rap nacional e faz parte da cena desde os anos 1990. De lá pra cá, o formato do seu trabalho foi modificado. Desde o seu último álbum (Flor de Lótus/ 2016) sua aposta está sendo no lançamento de singles e participações em músicas de outros artistas. Qual o propósito de adotar esse novo modelo?
Conte também sobre novos projetos e parcerias que estão previstas para 2024.

Em primeiro lugar, quero agradecer a citação de “maiores representantes do rap nacional”. O título é muito pesado e eu agradeço imensamente quando as pessoas se referem a mim dessa maneira. Fico lisonjeado e muito feliz de ser reconhecido dessa forma.

Agora, vamos lá… são muitos anos de luta e caminhada. Nos tempos atuais, as coisas são muito rápidas e é difícil emplacar músicas como acontecia nos anos noventa. Naquela época, era um outro método, uma outra linguagem. Quando as pessoas pegavam o disco, elas liam tudo, ouviam, degustavam as músicas e tudo o que era falado ali.

Hoje, não temos mais isso. Aconteceu uma grande mudança de perfis e é necessário se adaptar, mas confesso que eu não sou de desperdiçar música. Estou lançando singles, mas num determinado momento eles estarão reunidos num disco. Inclusive, é o disco que tá vindo aí…  e além dos singles já lançados também terão músicas inéditas e participações de rappers da nova geração. Já já as pessoas vão poder conferir esse novo trabalho.

Eu acredito que essa forma é uma maneira atual de se trabalhar e se você não se adequa, acaba ficando para trás.

Eu procuro fazer músicas para atravessar gerações, para elas conversarem com as pessoas de uma maneira muito especial. Isso continua acontecendo e é o que me deixa muito feliz!

2) Seu último single é “Voz Ativa”, música dos Racionais MC’s. Comente sobre a escolha de regravar uma música dos anos 1990 junto com Djonga e Coruja.

“Voz Ativa” foi regravada num momento muito importante. O assassinato de George Floyd estava repercutindo na mídia, além das duas mortes, que aconteceram no Rio de Janeiro, de Ágatha Felix, de 8 anos, e João Pedro, de 14. Obviamente, as três pessoas que me refiro são negras.

Dentro das favelas é isso que acontece: crianças e adolescentes sendo assassinados pela polícia! Por aqueles que deveriam nos dar segurança!

Mortes decorrentes de “balas perdidas”, que sempre têm um alvo: corpos pretos. Essas balas sempre estão no morro, nas vielas, nas favelas… elas têm endereço. É fácil a gente entender que essas balas não são tão perdidas assim e, na maioria das vezes, elas atravessam corpos pretos. Portanto, tudo isso é parte da estrutura do racismo atuante no Brasil e no mundo.

Regravar “Voz Ativa” teve muito a ver com isso. Foi um grito de guerra! Inclusive, que muitas pessoas não conheciam. Fazer essa nova versão com Djonga e Coruja ainda tem a questão de ser com rappers da atualidade, que eu admiro, além de possibilitar apresentar a música também ao público deles.

Fazer esse trabalho com os dois foi um enorme prazer, além de denunciar o racismo. Algo que deveria ser pautado diariamente. Minha intenção, assim como Racionais teve em 1992, foi debater e alertar o nosso povo sobre o que acontece em relação ao racismo no Brasil.

3) Pra você, como é a relação de trabalhar com artistas da cena rap atual? Existe uma troca de vivências e experiências musicais?

Eu não tenho amizade com muitos rappers da cena atual, mas com aqueles que são meus amigos existe muita troca. E não é só sobre música, a gente fala sobre vários assuntos. Posso citar o Djonga, L7nnon, os caras do ADL, Coruja, Gregory… são pessoas que tenho uma grande estima. O Gregory é mais velho do que eu no rap, mas é um cara que se atualiza sempre. É incrível a capacidade dele de se aprimorar.  

Já aqueles que são um pouco mais distantes, as ideologias são diferentes, a filosofia é outra. E está tudo bem, eu respeito, mas gera esse distanciamento. Isso também acontece com pessoas das antigas, da minha geração. Eu acho que quando você fica mais velho, também vai ficando mais seletivo. Estou com 50 anos, este ano vou para 51.

Pra mim, é sempre um prazer poder aprender com a nova geração e também ensinar, é uma grande troca.

4) Comente sobre o projeto social “Como vai seu mundo?” dedicado à comunidade carcerária. Conte os impactos positivos que ele já gerou na vida dos participantes.

Em 2011, quando eu conquistei a liberdade, esse projeto já existia. Na época, eu fui convidado pelo Dr. Jaime, que era o atual juiz da comarca da região, para desenvolver o projeto no semiaberto de Guarulhos. O convite me deixou muito feliz! Eu sempre senti a necessidade de projetos que garantissem algo de positivo na vida dessas pessoas. É importante mostrar novos caminhos e horizontes.

“Como vai seu mundo?” leva o nome de uma música minha para provocar o indivíduo a pensar o que ele está fazendo naquele local.  Essa é a intenção, mas atualmente, infelizmente, ele está brecado. A última visita que o projeto realizou foi na Fundação Casa, em 2023. Educar o povo no nosso país, sobretudo quem está atrás das grades, é como cometer um crime.

O projeto atuava nas alas masculina e feminina. Pessoas de diversos segmentos, como música e literatura, faziam essas visitas para conversar e levar mensagens positivas de encorajamento. Meu desejo é voltar com o projeto, mas por enquanto ele não está autorizado. Quem sabe um dia.

5) Você é inspiração para muita gente devido a sua história de vida e as mensagens que transmite por meio das suas músicas.
Fale quais são suas referências atuais na música, literatura, pessoas e líderes que admira, que assim como você, também lutam por justiça social no Brasil.

Eu admiro todas as pessoas, sem exceção, que trabalham em prol de um futuro melhor para todos. Essas pessoas me contemplam! Sempre tem alguém de bom coração desenvolvendo alguma coisa boa e são essas pessoas que me inspiram.

Quanto mais eu leio e me informo, eu vejo que tem muita gente fazendo coisas boas! Inclusive, gente que eu nem sei o nome. Às vezes eu vejo matérias na TV de alguém que está lá no Amazonas fazendo um trampo para ajudar pessoas, que eu nem conheço, mas admiro a atitude.

6) Para finalizar, fale sobre a sua experiência de ser titular
Abramus, associação que defende o direito autoral dos artistas de forma ética e transparente.

Eu sempre recebi um respaldo muito consistente da Abramus. Sempre fui muito bem assistido e auxiliado por todos que me atendem e cuidam das minhas obras: Vanessa, Fernando e Ariel.

Me sinto feliz e satisfeito em fazer parte da família Abramus. Agradeço todo o respeito e carinho ao longo desses mais de 20 anos de parceria.

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