Feffer e o Mundo – Entrevista com Ruben Feffer

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Feffer e o Mundo – Entrevista com Ruben Feffer

Composta por Ruben Feffer, a trilha sonora do longa de animação “O Menino e o Mundo” tem encantado plateias ao redor do globo. O filme foi o representante brasileiro no Oscar deste ano.

Revista ABRAMUS: Apesar de ser uma animação, “O Menino e o Mundo” não é exatamente um filme infantil. Foi difícil encontrar o equilíbrio entre esses dois mundos ao compor a trilha?

Ruben Feffer: As conversas com o diretor, Alê Abreu, ajudam nesse balanceamento, mas tanto eu quanto Gustavo Kurlat (compositor), com nossa experiência de fazer música para crianças de todas as idades, temos um conceito bem forte de nunca fazer nada puramente infantil, e reduzir o nível cultural ou emocional. Eu gosto de dizer que é para a criança em cada adulto, e o adulto em cada criança.

RA: “O Menino e o Mundo” não tem falas compreensíveis. Isso tornou o trabalho de composição da trilha mais desafiante?

RF: Tudo nesse filme foi desafiante. Mas era claro para nós que, pelo filme não ter diálogos compreensíveis com a mente, e sim com o coração, nossa responsabilidade era maior. Em alguns momentos, chegou a ser explicitado para nós que a responsabilidade da compreensão (e das pessoas gostarem ou não do filme) cabia em grande parte a nós e à nossa música! Por outro lado, havia uma liberdade criativa muito maior também, já que não tinha o problema tradicional de a música “brigar” com os diálogos.

RA: O rapper Emicida também participa da trilha. Como foi trabalhar com ele?

RF: Foi muito bacana! Ele é um artista incrível, super versátil, sem medo de experimentar. Quando o Alê falou com ele, o Emicida já foi fisgado logo de cara. Ficou superemocionado, foi para casa e voltou uns dias depois com um rascunho que ele tinha criado, e que já era praticamente 70% da música “Aos Olhos de Uma Criança”. Produzimos a canção incluindo nela um sample (extrair o trecho de uma gravação e utilizá-la para a construção de uma nova canção) da música-tema do filme, “Airgela”, e colocamos o Emicida para fazer rap ao contrário, invertendo o refrão de sua música “menino mundo, mundo menino” para “oninem odnum, odnum oninem”. Isso acabou dando um colorido único para a sua música, e fazendo a harmonização com o restante da trilha do filme maior.

RA: Como foi a emoção ao ter descoberto que o longa foi indicado ao Oscar, depois de já ter recebido mais de 40 prêmios mundo afora?

RF: Isso foi algo realmente inacreditável para todos nós, aliás continua sendo. O filme é extremamente atípico em relação aos padrões da indústria norte-americana de animação, e quase que explicitamente um manifesto contra essa hegemonia da animação “careta” que temos vivido. Ao mesmo tempo, não à toa que o filme recebeu tantos prêmios no mundo todo, ele não tem nacionalidade, é apenas humano, então, por que não seria reconhecido?

RA: Hoje, sua produtora musical, a Ultrassom, é uma das boas fontes de trilhas sonoras de filmes no Brasil. Como você enxerga o cinema brasileiro hoje?

RF: Muito obrigado! O cinema brasileiro está em uma nítida fase de maturação. Antes era algo mais infantil, extremamente pioneiro e corajoso, mas focado demais no próprio “umbigo” e difícil de dialogar com o resto das pessoas e do mundo. Estamos em um momento mais profissional, tanto técnica, quanto artisticamente e com talentos cada vez maiores em todas as áreas. Espero que consigamos amadurecer sem perder a criança interior, e possamos sempre trazer a criatividade e inovação que o brasileiro tanto tem a contribuir para o mundo.

RA: Como você enxerga o atual momento da animação brasileira?

RF: Não tem como negar que o momento da nossa animação é realmente muito forte. Isso é resultado de muitos anos de trabalho de diversas entidades como a ANCINE, o BNDES, e da Lei do Audiovisual que ajudou muito esse mercado a se estabelecer. Hoje, após as sucessivas premiações que o Brasil trouxe, o mundo olha para nosso país com outros olhos e tenta capturar um pouco desse talento e sucesso. Estou muito feliz em poder fazer parte de um momento tão produtivo desse mercado.

RA: Qual a importância da proteção de Direitos Autorais e sua relação com a ABRAMUS para o seu trabalho?

RF: A ABRAMUS e seu trabalho com relação aos Direitos Autorais tem sido de extrema importância para o meu trabalho. A equipe sempre me ajuda a sanar dúvidas, e até pequenas produções criadas e publicadas há tempos ainda trazem frutos, que seriam completamente perdidos, não fosse pelo trabalho da Associação. Eu indico a ABRAMUS para todos que queiram maximizar a gerência de suas produções musicais, independentemente do ramo ou estilo.

 

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