

A maior associação de música e artes do brasil
Por Belinha Almendra
Quando o doutor Aldir Blanc Mendes deixou a medicina, em 1974, a música popular brasileira ganhou um de seus mais geniais criadores. O psiquiatra que abandonou a carreira por discordar dos métodos violentos usados nos tratamentos da época tornou-se um cronista sensível da alma brasileira, cuidando de suas dores por meio da música e da literatura.
Nascido no Estácio, criado em Vila Isabel e morador da Tijuca, Aldir fez da Zona Norte carioca um dos cenários mais constantes de sua obra. Com olhar carinhoso e irônico, transformou ruas, personagens e situações do cotidiano em canções e crônicas. Começou cedo na música, estudando bateria aos 17 anos, e viveu a efervescência dos festivais, onde sua criatividade logo chamou atenção. Em 1970, veio o primeiro grande sucesso: Amigo É pra Essas Coisas, parceria com Silvio da Silva, gravada pelo MPB4.
Em 1971, conheceu João Bosco, parceiro de uma das mais importantes duplas da música brasileira. A primeira colaboração, Agnus Sei, nasceu por carta. Vieram depois cerca de 100 músicas, entre elas Dois pra Lá, Dois pra Cá, Transversal do Tempo, O Mestre-Sala dos Mares e Kid Cavaquinho. Com Elis Regina, 20 composições foram gravadas — entre elas O Bêbado e a Equilibrista, transformada em hino da anistia.
Mas a dimensão de Aldir vai muito além de seus grandes sucessos. Suas letras também revelaram um Brasil negro, indígena, múltiplo e diverso, enquanto sua produção como cronista ocupou páginas de alguns dos principais jornais do país.
Nesta homenagem, companheiros de geração, intérpretes, parceiros e amigos ajudam a revelar diferentes faces do artista. Ivan Lins recorda o jovem Aldir dos bares e festivais. Joyce Moreno fala do poeta “profundamente brasileiro”. Leila Pinheiro revive a emoção diante das letras inéditas que deram origem a Catavento e Girassol. Alexandre Nero, por sua vez, revela um Aldir muito diferente do personagem mal-humorado que o folclore construiu.
Aldir Blanc, que completaria 80 anos neste mês de setembro, nos deixou em 2020. Cinco anos depois, sua obra continua oferecendo uma espécie de espelho do Brasil: às vezes lírico, às vezes incômodo, quase sempre preciso. E talvez seja justamente nas lembranças de quem esteve ao seu lado que esse retrato ganhe seus contornos mais vivos.
É sobre esse Aldir — o artista, o parceiro, o amigo e o cronista que soube fazer da vida brasileira literatura e canção — que a próxima edição da Revista Abramus se debruça.
Arte: Júlia Sousa
Foto: Marco Antônio Teixeira/Agência O Globo