A guitarra assume o protagonismo na edição de hoje do Sintonizando com Jéssica Falchi, um dos nomes de destaque do metal nacional.
A musicista construiu uma sólida trajetória na cena, acumulando no currículo turnês internacionais e atuações ao lado de grandes referências do gênero, como Kiko Loureiro, Eloy Casagrande e Aquiles Priester, além de vídeos reconhecidos pela banda norte-americana Metallica.
Atualmente, Jéssica divide sua rotina entre os palcos e as composições. Ela integra a lendária banda de thrash metal Korzus e lidera a banda Falchi, projeto que marcou sua estreia solo com o EP instrumental “Solace”.
Vem sintonizar com Jéssica Falchi!
Como foi dar vida à banda Falchi, seu primeiro trabalho solo, e quais desafios marcaram essa estreia? Essa ideia já era um desejo antigo?
Não era uma pretensão ter algo solo, mas, devido a um convite para um podcast para guitarristas, eu quis levar uma música instrumental para me apresentar, já que é um gênero que eu consumo desde criança e que me moldou enquanto guitarrista. Enquanto estava preparando a música, mostrei para o Jean Patton, que gostou da ideia e se ofereceu para produzir. Começamos a trabalhar juntos e, como o processo estava fluindo de forma muito natural, acabou resultando em um EP com quatro músicas.
Pela primeira vez, senti que estava criando algo 100% meu, sem precisar me encaixar em uma estética ou proposta já existente. Ao mesmo tempo, ter vários caminhos para seguir me gerou uma insegurança sobre saber se o que eu estava fazendo era bom o suficiente. Ter o Jean comigo nesse momento, com quem eu já tinha uma conexão de amizade e estava construindo também uma conexão profissional, foi extremamente importante, porque ele me apoiou e me deu mais confiança
Conte sobre o processo criativo do EP “Solace”. De que forma as composições foram estruturadas para que os instrumentos guiem o ouvinte sem o recurso das letras?
Vejo que existe um preconceito com músicas instrumentais, em que as pessoas associam esse gênero a uma demonstração exagerada de técnica. A ideia, desde o início, era não fazer música apenas para músicos, mas fazer com que a guitarra ocupasse o lugar da voz e contasse uma história através de linhas melódicas marcantes.
As músicas foram construídas com base em muita dinâmica, atmosfera e intenção. Eu queria que cada faixa tivesse uma personalidade própria e representasse gêneros distintos de que eu gosto. Como as pessoas me associam muito ao metal, também quis mostrar que, apesar de o thrash metal ser um dos meus gêneros favoritos, algo que podemos conferir em “Sweetchasm, Pt. 2”, eu também gosto de coisas mais contemplativas, como podemos ouvir na segunda faixa do EP, “Sunflare”.
De que maneira surgiu o convite para integrar o Korzus? E como tem sido a experiência de dividir o palco com uma referência tão histórica do thrash metal?
O Jean já tocava como convidado no Korzus desde 2022, mas ainda não era integrante oficial. No fim do ano passado, a banda passou por uma reformulação e o convidou para entrar oficialmente. Também deram a ele a missão de convidar alguém para dividir as guitarras, já que os riffs marcantes são uma das principais características do gênero.
Como o Jean estava produzindo meu EP e estávamos vivenciando uma dinâmica profissional muito fluida, além de uma forte conexão musical, ele me sugeriu para integrar o Korzus ao lado dele. A banda aprovou a ideia, então o Jean me convidou, e eu achei esse convite incrível.
Parecemos uma família, e é uma honra conviver e dividir o palco com músicos que ajudaram a construir a história do thrash metal no Brasil. Tem sido uma experiência intensa e enriquecedora. Aprender com músicos tão experientes e poder contribuir com minha própria personalidade dentro de uma trajetória tão importante, é muito gratificante.
Do seu ponto de vista, quais barreiras ainda persistem para as mulheres no metal e qual a importância de ocupar esses espaços hoje?
Trabalho no meio há muitos anos, toquei pelo Brasil todo, fiz turnês internacionais e participei de muitos dos maiores festivais de metal do país, além de ter tido a oportunidade de tocar com grandes nomes da cena. Posso dizer que, apesar de estarmos avançando, as barreiras para nós, mulheres, ainda existem.
Ao mesmo tempo, estamos vivendo essa mudança. Hoje vemos cada vez mais mulheres ocupando espaços diferentes, seja como instrumentistas, produtoras ou na parte técnica, e isso é fundamental para mudar perspectivas. Quando uma menina vê uma mulher tocando bateria, guitarra ou comandando uma banda, ela entende que aquele espaço também pode ser dela. Para mim, ser a primeira mulher em 43 anos a integrar o Korzus vai além da questão individual: é abrir caminho para que isso se torne natural e deixe de ser visto como exceção.
Fale sobre sua experiência como titular Abramus. Você sente que fazer parte da associação oferece proteção e apoio à sua carreira musical?
Sim, sem dúvidas. Fazer parte da Abramus traz uma sensação importante de proteção e valorização do trabalho autoral. Como compositora e artista independente, entender melhor os direitos autorais e ter suporte nesse processo faz muita diferença. Acho que, muitas vezes, os músicos focam tanto na parte artística que acabam deixando de lado questões fundamentais da gestão da própria obra. Ter uma associação que auxilia nesse acompanhamento, arrecadação e orientação ajuda muito a profissionalizar a carreira. Hoje, vivendo uma fase mais autoral, vejo ainda mais importância em estar ligada a uma instituição que defende os direitos dos criadores.
Fotos: César Ovalle | Cedidas pela artista
Arte: Júlia Sousa | Texto: Barbara Freitas