De Fortaleza para o mundo: Artur Menezes e o caminho da música autoral no cenário internacional

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De Fortaleza para o mundo: Artur Menezes e o caminho da música autoral no cenário internacional

Por Dani Turano

Para Artur Menezes, guitarrista, cantor e compositor brasileiro radicado em Los Angeles, a música nunca foi apenas interpretação – sempre foi criação. E é dessa escolha que nasce toda a sua trajetória. Em um cenário em que muitos artistas transitam entre repertórios, ele construiu seu caminho a partir de um princípio claro: fazer da obra autoral o centro de tudo. Não como estratégia, mas como consequência de uma inquietação artística que se consolidou com o tempo.

“Tem beleza em tudo: no artista que interpreta, no que faz cover, no que faz versão. Mas o que mais me emociona é poder cantar o que eu sinto. Quando compartilho algo que é meu, parece que tem um valor diferente”, conta.

Essa decisão, que hoje define sua identidade, foi sendo construída ao longo de uma trajetória marcada por deslocamentos, descobertas e mudanças de perspectiva.

A virada internacional

A primeira grande virada aconteceu fora do Brasil. Ainda jovem, ao ir a Chicago, cidade onde o blues elétrico ganhou identidade, Artur viveu uma experiência que mudou sua percepção sobre o próprio caminho. “Uma coisa é você ser reconhecido na sua cidade. Outra é chegar a Chicago, que é a meca do blues elétrico, e ouvir das pessoas: ‘Você toca muito bem, vamos tocar amanhã, vem tocar com a gente’. Quando você começa a escutar isso lá, entende que tem alguma coisa certa acontecendo”, diz.

Até então, ele era um guitarrista de blues tradicional, com uma rotina intensa de shows em Fortaleza. Mas, ao observar músicos misturando gêneros e experimentando novas linguagens, percebeu que a tradição também podia ser transformação. “Para mim, blues tinha que ser de um jeito só. Mas, quando fui a Chicago e vi o pessoal misturando blues com hip-hop, com rock, com rap, com funk, pensei: se os caras que criaram essa música estão misturando, por que eu, vindo do Brasil, vou ficar preso a uma ideia tão rígida?”

Ali, veio a certeza de que o melhor caminho seria a construção de uma voz própria. A decisão de se mudar para São Paulo surgiu logo depois, como um passo estratégico para ampliar sua presença no Brasil. O impacto foi imediato.

Acostumado a tocar todos os dias no Ceará, enfrentou um longo período de silêncio na capital paulista. Os shows demoraram a acontecer, e foi nesse intervalo que ele percebeu quanto o palco era essencial. “Em Fortaleza, eu tocava de segunda a segunda. Quando cheguei a São Paulo, meu primeiro show demorou meses. Isso mexeu muito comigo, porque eu sempre gostei do show ao vivo, da troca de energia com o público e com os músicos ali do lado”, afirma.

Mas as coisas logo mudaram, ea carreira começou a ganhar escala. Um dos momentos mais simbólicos desse percurso foi dividir o palco com Buddy Guy – primeiro em seu pub, em Chicago, depois abrindo seus shows no Brasil, em 2012. “Todo mundo pergunta se eu fiquei nervoso, mas a verdade é que não. Eu já tocava com ele desde os meus 12, 13 anos, em casa, com os discos, aprendendo as coisas dele de ouvido. Então, quando aconteceu ao vivo, foi muito natural. Foi uma experiência incrível”, celebra.

A trajetória, então, ganhou projeção. Vieram turnês internacionais, festivais importantes, como o August Blues, na Estônia, um dos maiores da Europa, e reconhecimentos relevantes, como o prêmio de melhor guitarrista de 2018, concedido pela Blues Foundation durante o International Blues Challenge, em Memphis, uma das principais instituições dedicadas à preservação e promoção do blues. Nesse percurso, Artur também passou a integrar eventos de grande prestígio, como o Crossroads Guitar Festival, idealizado por Eric Clapton – primeiro por meio de um concurso internacional, em 2019, em que venceu bandas de todo o mundo; e, depois, como convidado, em 2023.

A obra como fundamento

Depois de atravessar palcos, cidades e países, há um elemento que permanece constante nessa trajetória: a obra autoral. Diferentemente de uma decisão planejada, ela surgiu como consequência de uma necessidade artística. Foi a partir das primeiras experiências internacionais que Artur decidiu assumir também os vocais e construir um repertório próprio.

“Quando voltei da primeira vez de Chicago, pensei: quero ter a minha banda, tocar as músicas que quiser. E, para comandar isso, precisava cantar também. Foi daí que começou esse lance do autoral.”

Hoje, seus shows são majoritariamente autorais, e isso define sua relação com a música. Com o tempo, suas composições também amadureceram. Se no início dialogavam mais diretamente com o universo do blues, hoje refletem questões mais amplas e contemporâneas.

“No começo, eu era mais jovem e acabava seguindo muito o que outros artistas faziam. Hoje, as letras estão mais subjetivas. Elas falam do mundo, de ansiedade, de tecnologia, de depressão, de coisas mais internas. Nem sempre são sobre mim diretamente, mas sobre o que eu vejo, sobre o que eu sinto no mundo”, explica.

Novo disco, novos caminhos

Artur Menezes prepara o lançamento de um álbum autoral, previsto para os próximos meses. O projeto já começou a ser apresentado ao público com os singles Once Again, lançado em março, e Not Today, que será lançado em abril, que antecipam a sonoridade do trabalho.

Produzido pela baixista Pops Magellan, que também faz parte da banda, o disco propõe um encontro entre o blues e uma estética mais contemporânea, com influências que passam pelo rock, pela psicodelia e pela cena independente internacional.

O encontro entre a linguagem do artista e a abordagem de Pops incorpora novas camadas sonoras, incluindo o uso de sintetizadores e texturas que ampliam o alcance do projeto.

“Tem essa minha paixão pelo blues e pelo vintage, pelos timbres mais clássicos, mas também tem uma produção mais moderna, com outras camadas, outros sons. É um disco que expande esse lugar”, diz Artur.

A expectativa é que o álbum circule em diversas frentes, do circuito de blues contemporâneo à cena indie e de festivais, e seja inscrito em categorias internacionais como Contemporary Blues Album, no Grammy Awards.

O plano inclui, após o lançamento, novas turnês pela Europa e pelos Estados Unidos e apresentações no Brasil.

Foto: Poliana Bass/Instagram @polianabass | Retirada do Instagram @art_menezes

Arte: Júlia Sousa

           

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