

A maior associação de música e artes do brasil
Por Sérgio Martins
Em cartaz na Rede Globo desde o início de janeiro, Coração Acelerado, novela das 7, é mais uma investida da emissora carioca no mundo sertanejo (as anteriores foram A Favorita, de 2008, na qual Patrícia Pillar interpretou uma cantora do gênero, e Rensga Hits, série sobre o mercado da bota e do chapelão). A trama atual chama ainda atenção pela qualidade das composições, em sua maioria escrita pelo cantor, produtor e compositor Samuel Deolli. Ele assina – como produtor, compositor e até editor – nada menos do que 20 músicas que ilustram a história de amor entre João Raul (Filipe Bragança) e Agrado Garcia (Isadora Cruz).
Deolli, 37 anos, é uma grife de respeito no atual mercado musical. Em mais de uma década de trajetória, tem canções gravadas por quase todos os artistas sertanejos (e aqui estamos falando de gente graúda como Zezé Di Camargo & Luciano, Jorge & Mateus, Chitãozinho & Xororó). Sua influência, contudo, não se limita a esse mundo. Ele é admirado por nomes do pop brasileiro, como o Roupa Nova, e do universo do samba. Thiaguinho e o grupo Sorriso Maroto estão entre os sambadores que botaram uma criação do compositor em seu repertório – no caso, Energia Surreal e 50 Vezes. “Cresci na década de 1990, em Goiânia, período em que a cena era diversificada. Fui apaixonado por Lulu Santos, Legião Urbana, Charlie Brown Jr. O Brasil dos anos 1990 era aberto a tudo”, diz Deolli, em entrevista para a revista da Abramus.
A biografia de Samuel é coisa de cinema. No caso, aquela sucessão de dramas e reviravoltas com final feliz. Sua mãe o teve com 16 anos, e a família chegou a morar num terreno invadido, localizado na periferia da capital de Goiás. Em 2000, ela se mudou para a Bélgica a fim de buscar novas oportunidades de trabalho. Posteriormente, Deolli e os irmãos acompanharam a mãe. Naquele país, o futuro compositor fez faculdade de engenharia de áudio. No entanto, sabia que ainda não tinha encontrado seu caminho. “Entrei em depressão, por estar numa coisa que não queria fazer”, diz.
Deolli voltou para o Brasil, mais especificamente para Goiânia, e decidiu trabalhar como compositor. Era uma paixão antiga: tinha 14 anos quando escreveu Ingenuidade, dedicada a um crush da adolescência. “Ganhei 300 reais pela música”, jacta-se. Nesse percurso, conheceu incentivadores como Wendell Vieira, empresário de Jorge & Mateus, que apostou em seus dotes como autor. Para a dupla, Deolli criou sucessos como Logo Eu e Nocaute; Gusttavo Lima gravou 10 Anos, e a dupla Guilherme & Santiago arrematou Jogado na Rua. Em 2015, amparado por diversos hits de sua lavra, ele decidiu criar sua editora.
Uma das maiores alegrias da carreira de Samuel foi quando conheceu o Roupa Nova. O combo de pop/rock e MPB participou de um projeto de Marcos & Belutti e se encantou com Tão Feliz, criação do compositor. Ricardo Feghali, tecladista e maestro do conjunto, posteriormente entrou em contato pedindo músicas para o álbum As Novas do Roupa. Eles gravaram duas obras: Amor Sob Medida, que traz participação de Luan Santana, e Amor de Emergência. “Amor de Emergência virou uma das canções de trabalho do disco que eles lançaram em 2019, ainda com Paulinho nos vocais”, orgulha-se (o cantor morreu em dezembro de 2020 por causa de complicações da covid).
Deolli, a exemplo de seus pares, é um produto mais do Goiás urbano do que caipira. Por mais que admire compositores como Elias Muniz, é fã também do pop/rock brasileiro, do inglês Ed Sheeran e do sueco Max Martin, atual fábrica de hits do show biz internacional.
A participação em Coração Acelerado aconteceu por meio de Daniel Musy, saxofonista e produtor, e de Marcel Klemm, diretor-geral da Warner Chappell. Esse último chegou a organizar um song camp (espécie de laboratório para criar canções) a fim de gerar o repertório da trama. “Funciono sob pressão e com briefing. Mas componho por inspiração. Tenho de ter um violão à mão, tenho de ter ideias”, explica Deolli, que teve uma aula sobre os personagens. Deu certo: boa parte do repertório da trama saiu de sua pena e de seus contratados. Por contratados, entenda-se os agregados da Deolli Music, editora do compositor, que tem escritores de peso como Raffa Torres, Lucas Santos, Mateus Candotti, Rapha Lucas, Normani, Felipe Viana e Davi Jonas. Ao todo, foram oito músicas como autor, oito na função de produtor (a pedido de Musy e de Victor Pozas, que cuidam da direção musical da trama) e 20 criações de seu time de compositores.
Dá certo? Ô se dá. “Somos um time de 50 autores, e no top do Spotify já chegamos a 33 músicas entre as mais tocadas do ano”, diz. Além da Deolli, ele é proprietário da editora Nocaute, em parceria com a Warner Chappell.
Autor de mais de 1.500 composições, sendo que mais de 700 foram registradas em discos de canários diversos (até internacionais, como Prince Royce), Deolli é muito mais do que um autor sertanejo. Chega a ser redutor classificá-lo apenas nesse gênero. “O Michael Sullivan, um dos meus ídolos, disse que sou compositor e pronto. Posso criar músicas de diversos estilos”, comenta. Não duvidemos da capacidade de criação desse rapaz. Quem superou tudo o que ele superou tem força de vontade e tanto para compor até hinos do heavy metal.
Arte: Júlia Sousa | Foto: Direitos reservados