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Vanessa da Mata

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A garoa que veio do céu no exato instante em que o público cantava comigo que “o que a gente precisa é tomar um banho de chuva” não era cenográfica. Ela aconteceu mesmo, sem que nós pudéssemos – e nem quiséssemos – controlar. O vento também parecia decidido a colaborar conosco, soprando sempre a favor e nunca contra. Todos os detalhes técnicos que haviam sido planejados antes ficaram, em boa parte, nas mãos da natureza, do acaso, da sorte, do tempo. E tudo resultou melhor do que esperávamos nas duas noites de gravação de quatro horas cada. Meu primeiro DVD tinha de ser assim.

Acho que foi por isso que esperei tanto para lançá-lo. Fui bordando aos poucos, pelas beiras, passo a passo, até chegar ao meio e fechá-lo com meus detalhes, imprimindo-os sutilmente, dada a minha própria personalidade. Como se fosse uma letra musical, um perfume feito de imagens, de vários sabores, combinações e desenhos. Escolhi Paraty como cenário porque, apesar de ser uma cidade de praia, ela é pequena, linda, importante e tem todos os elementos poéticos das cidadezinhas do interior deste país. Seus personagens típicos, por exemplo, vieram: o mendigo com seu cachorro, os senhores e seus carrinhos de bolos e delícias, as senhoras da igreja, o padre, as crianças, os turistas estrangeiros que se entregam sem grandes questionamentos ao que está acontecendo, um beija-flor que se arrisca em um bebedouro do cenário. Todos eles entraram no filme.

Nesse show, eu me dedico a outras áreas, também. Por necessidade eu mesma criei o cenário. Também é minha a maior parte do figurino. Fui comprando tecidos nos lugares por onde passei – de Paris ao Peru – para fazer roupas que diziam da minha vida e que eu não achava prontas em nenhuma loja do mundo. Achei que só fazia sentido se fosse assim. O vestido vermelho é da grife Martu.

Mudamos a maioria dos arranjos, como faço sempre que incluo uma música antiga em um show novo. Cada vez que se rearranja uma canção, o artista dá a ela a chance de mostrar novas imagens, de contar outras histórias ao público. Isso está mais evidente em “Não me Deixe Só”, “Ainda Bem” e “Viagem”.

Ao meu repertório cotidiano, acrescentei três canções. Apenas uma foi escrita por mim, “Acode”, que tirei do meu baú antigo. Está pronta há mais de 10 anos, antes mesmo de eu gravar o primeiro disco. Serviu bem para minha fase atual. Não trouxe mais novas canções porque já foi muito difícil o sacrifício de cortar outras a que eu era apegada dos meus discos anteriores.

Decidi me arriscar e reapresentar minha versão para o clássico “As Rosas Não Falam”, que já tinha registrado no programa “Som Brasil” dedicado aos 100 anos do mestre Cartola. A motivação para essa ousadia veio por conta de um carinho que recebi da Alcione, que também estava no programa. Conversando comigo ao final das gravações, ela fez um elogio a minha interpretação. Foi uma honra ouvir essa observação de uma intérprete tão nobre quanto é Marrom, uma mangueirense que conhece o repertório de Cartola como poucos. Não resisti.

“Um Dia um Adeus”, a terceira canção “nova”, vem da memória da minha adolescência, da memória afetiva do Brasil da década de 80, e me traz lembranças ótimas. Guilherme Arantes para mim é um dos maiores hitmakers deste país, compõe melodias lindas e sinuosas para letras diretas, transformando toda sua complexidade musical em algo aparentemente simples.

Por outro lado, algumas coisas não poderiam ser mudadas. A primeira delas é a direção musical que escolhi e deu certo no CD “Sim”, tão bem dividida entre Kassin e Mario Caldato. Também não era possível substituir os geniais Sly Dunbar & Robbie Shakespeare nas cinco músicas que gravamos com eles na Jamaica. Tivemos a felicidade de repetir a parceria no Brasil. Ao vivo ficou melhor ainda, especialíssima presença.

Ben Harper entrou nos extras. Trouxemos uma parte dos nossos encontros pelo mundo, em festivais na Suíça, Barcelona e Brasil. Por razões que eu nem preciso explicar, era importantíssimo para mim e para a nossa canção que a voz e a guitarra dele estivessem em “Boa Sorte/Good Luck”.

Ainda que muita coisa tenha sido preparada especialmente para este novo trabalho, a turnê de “Sim” serviu como o grande esquenta e preparo. Foram cerca de 180 apresentações pelo Brasil e pelo mundo, feitas no período de dois anos, em que Donatinho, Cesinha, Davi Moraes, André Rodrigues, Marco Lobo, Tibless, Play e eu fomos ganhando um companheirismo musical como poucas vezes acontecera comigo. Joana Mazzucchelli viajou conosco pela Europa por 20 dos 45 dias daquela turnê para captar o clima do nosso cotidiano.

Para finalizar, continuo a mesma, cantando de cabelos soltos e pés descalços. Fiz alguns sacrifícios ao cortar músicas dos discos anteriores, mas esse é o preço por esperar tanto tempo para um primeiro DVD. Em contrapartida, valeu a pena porque agora dá para dizer que este jardim sou eu. Então, agora Paraty é minha cúmplice, dama de honra, minha parceira em um registro abençoado pela natureza. Com flores, aromas, cores e muito Brasil. O meu primeiro DVD é cheio de um jardim de perfumes de sim.



Fonte: site oficial

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